17 junho 2024

QUANDO PENSAR EM MIM

Quando pensar em mim me conta. 

Não esconde.

Quando lembrar meu nome me chama, diz qualquer coisa.

Fala que atendeu alguém com o mesmo apelido que o meu e que se recusou a usar a mesma entonação que fala comigo ao chamar ela pelo nome. 

Diz que pensou em mim ao acordar, antes de dormir ou numa hora qualquer do dia, que o pensamento era indecente e tentou evitar, mas ao fechar os olhos sentiu como se estivesse vivendo aquele momento.

Fala besteira, diz que tá com saudade, que quer me ver logo e que não aguenta mais só viver a gente na imaginação.

Quando lembrar de mim manda um oi, me conta que quase bateu o carro porque não quis atropelar um cachorro, sei lá, fala que tropeçou e o dedinho tá doendo até agora, que queimou a comida ou que descobriu um novo fio de cabelo branco.

Diz qualquer coisa, mas diz.

Fala do tempo, do vento, da morte da bezerra, mas fala, deixa claro que ainda pensa em mim, vez ou outra no dia, como antes. 

Me deixa saber que tu, como eu, pensa na gente com mais frequência do que deveria.

Que ocupo tua mente de maneiras inoportunas, em hora que não é para ocupar, que sou motivo da tua procrastinação e que tu odeia esse fato, mas não consegue evitar.

Quando lembrar de mim me deixa saber, fala de qualquer coisa.

Diz que lembrou do meu sorriso ou do meu jeito torto de caminhar, de como eu sou um desastre ambulante e um perigo para minha integridade física ou como percebe que eu fico fazendo careta para o nada e que é engraçado me ver assim.

Não importa saber o que, só diz que tu também lembrou de algum detalhe meu.

Fala que tu se perde quando me tem por perto e que assim como é comigo, a ansiedade rouba a cena e também não sabe bem como agir direito quando nosso olhar se encontra.

Quando pensar em mim me deixa saber...

Fala que anseia meu toque tanto quanto anseio o teu.

Diz pra mim que também tem vontade do nosso nós à sós quando me tem só em meio a multidão. 

Quando pensar em mim me liga, me manda um áudio idiota. Não me importo com o conteúdo, só me deixa ouvir tua voz embargada de saudade.

Só me deixa saber que o tanto que eu penso em ti, tu pensa em mim também.

02 junho 2024

PRONOMES POSSESSIVOS EM SUJEITOS OCULTOS

Eu gostava de ser tua.

Não que eu realmente fosse, pois nunca fui tua de fato. Eu gostava era de quando tu usava de pronomes possessivos pra me fazer sentir ser tua.

E de como eu sabia que essa posse era uma mera ilusão inventada, uma maneira que tu encontrou de me fazer presença sem poder estar por perto.

Mas mesmo assim eu me entregava à tua escassez calculada.

Eu gostava de ser tua de mentirinha. Gostava da sensação que tu querer me ter me causava. E da forma como me entregava a ti e à essa ilusão sem receios.

Tu me fez tua.

E ignorou quaisquer avisos prévios que dei com a convicção de que não seria feita posse de ninguém. Engraçado, mesmo assim fui feita posse tua.

Inteiramente tua. 

E gostei de cada vez que optei por ser.

Hoje já não sou mais tua. Ao menos não por meio do uso de um pronome possessivo qualquer emitido da tua boca.

Embora teu eu silencioso me diga o contrário e me sussurre em detalhes omissos que talvez, eu nunca tenha deixado de ser tua.

Teu eu me diz que ainda sou tua em silêncio.

Teu eu me diz que ainda sou tua quando teu toque em mim dura um segundo a mais que o planejado e me mostra que tu, na verdade, também não quer desfazer o nosso nós.

Teu eu me diz que ainda sou tua quando teu olhar repousa no meu e por mais de um segundo se prende ali, sem sequer pensar em disfarçar. Como se me invadisse por dentro buscando por um mínimo a mais de tempo pra que a gente possa se ter sem hesitar.

Realmente, o tempo, seja verbal ou real, diz muito.

Mas não acho que o diálogo do tempo seja sobre deixar ele passar. E sim sobre segurar o máximo para que não passe.

Talvez nesses lapsos de segundos a mais o tempo queira apenas susussurar que pronomes possessivos ainda podem existir em sujeitos ocultos.

Quem sabe queira apenas dizer que, na verdade, pronomes pouco importam quando os sujeitos ainda se tem, mesmo omissos.

Que seja! 

Deixa o tempo falar...

27 maio 2024

TU É O TIPO DE AMOR QUE QUASE ACONTECEU

Queria dizer o contrário, não te comparar com a utopia das milhões de cenas inimagináveis que minha mente criou, mas não posso negar que tu me foi exatamente isso:

Um quase.

Sabe quando a gente desce as escadas e a perna fraqueja como se deixasse de existir por miléssimos de segundos? Sobe aquele frio na barriga instantâneo e um medo crescente do degrau abaixo não estar onde o cérebro previu que estaria, mas aí o pé toca o chão e tudo volta a estabilizar?

Então só resta respirar fundo, acalmar os ânimos e pensar: ufa, essa foi por pouco! 

... Tu é esse tipo de quase.

Um degrau que eu quase cai.

Onde quase perdi o chão.

Tu é o tipo de amor que quase aconteceu.

O lado bom dessa história é que não ralei nenhum joelho, muito menos quebrei a cara ou rolei escada abaixo, foi só um aviso prévio para que o frio na barriga não fosse encarado como borboletas no estômago.

O que é uma bela de uma droga, sabia? Pois, modéstia parte, seríamos um joelho ralado muito bonito. Se é que me entende.

Mas tu preferiu o quase, onde o espaço vago para o amor nas possibilidades deixou de ser infinito.

Preferiu chegar com tudo e não ser nada.

Se aproximar com um começo planejado e um final pré determinado, me deixando a mercê de meios tão vazios que nunca soube bem como preencher.

No fim, acabei preenchendo do meu jeito.

Com minhas histórias mal contadas, meus clichês insuportáveis e uma vontade mitigada de te amar em pedaços.

Como se pudesse ter controle do frio na barriga que os danos desses teus vazios sem roteiro iriam me causar.

Não tive.

Quase me perdi nesse teu quase.

Pisei em falso, mas recuperei a estabilidade.

Talvez, na próxima, eu deva tropeçar em ti de vez.

14 abril 2024

TU CABE TÃO BEM AQUI


Todo domingo te coloco pra fora.

Te desinternalizo de mim.

Quase como uma ressaca imoral.

Todo domingo te recrio como se pudesse sentir tua pele a me tocar de leve pela manhã.

Tuas mãos firmes sobre a minha cintura a me levar pra perto encaixada no teu corpo quente. E teu beijo doce.

Todo domingo te construo inato.

Teus dedos embolados no meu cabelo, tua voz meio rouca balbuciando algum assunto aleatório, meu braço descansado no teu peito e o som do teu coração calmo como trilha sonora do nosso nós.

Todo domingo te invento em minúcias enquanto o cheiro de café preenche a casa vazia e olho para o outro lado da mesa te imaginando ali com a cara ainda inchada e teu jeito bonito de esfregar os olhos. 

O teu olhar a me fitar num misto de desejo e carinho, a xícara entre os dedos e teus lábios exalando o gosto do café amargo.

Todo domingo te incluo na rotina, porque nos domingos eu tenho tempo pra parar e te pensar inteiro.

Com calma, com alma.

É que tu cabe tão bem aqui.

No meio das minhas bagunças organizadas, julgando minha coleção de DVDs, meu violão a pegar pó ou meu gosto duvidável pra música.

Tu cabe tão bem na minha casa tanto quanto no meu abraço.

No cafuné despretensioso, na cócega gostosa da tua barba na minha bochecha ou no jeito como minhas mãos gostam do contorno do teu rosto a te acariciar a face.

É que o nosso encaixe é fogo. 

O beijo é caminho. 

Nosso abraço, conforto.

E eu já não sei mais te fazer não caber em nós.

11 abril 2024

SEJA MAIS QUE A MINHA INSÔNIA

Quando fechei os olhos continuei visualizando a forma como os cantos da sua boca levantavam levemente ao projetar o início de um sorriso descontraído ou a forma como arqueava as sobrancelhas só para mostrar que aquilo que eu falava era realmente algo interessante. 

Rolei na cama por mais incontáveis segundos ignorando o horário no celular, não conseguindo descansar minha cabeça de você. Sem conseguir dormir ao imaginar se, talvez, apenas talvez, estivesse pensando em mim naquele exato momento também.

Eu vi seu rosto passear pelas alucinações da minha mente inquieta que te queria e não te queria ali, numa guerra contraditória. Vi teu sorriso vagar entre a insônia de uma madrugada regada a tempestades de sentimentos tão confusos. 

É estranho como eu te tenho tão perto mesmo que esteja tão longe.  

Eu senti saudade sua e nem percebi quando foi que comecei a deixar meu coração sentir tanto por você sem nem primeiro conversar com a minha razão. 

Logo eu, que já te quis por tempos pré determinados, hoje quero quebrar o relógio e pausar o mundo só para viver essa saudade inquieta, pra te ter aconchegado comigo, de braços enlaçados, olhares focados e corações inquietos. 

Por favor, só peço que seja mais que a minha insônia. 

Seja mais que simplesmente a lucidez de uma saudade de madrugadas esquecidas. 

Seja mais que a minha vontade de te ver dia após dia. 

Vem e me diz que também faço parte do teu mundo. Confessa que algumas noites dessas também virei tua falta de sono e que ao fechar os olhos lembrou um pouquinho de algum detalhe meu. 

Diz que não é só o meu coração que é bobinho, que o teu também se perdeu quando nosso olhar se encontrou. 

Vem aqui pertinho, encaixa teu corpo no meu e promete pra mim que hoje você não será só mais uma noite de insônia, que vai trocar o quentinho das tuas cobertas pelo calor do meu abraço.

Vem e divide comigo essas angústias que anda guardando há tempos, me conta do teu passado e dos planos incríveis que ainda nem tem certeza querer. Deixa eu conhecer além da forma de um único sorriso, mostra que teu jeito tão sem jeito pode me encantar ainda mais. 

Seja mais que a minha insônia...

Só por hoje, talvez por amanhã... quem sabe também depois.

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