26 junho 2022

EM ÓPIO

A mão gelada entrelaça o cinza entre as digitais
O grafite perfura o tempo inventando outros riscos.
Outras linhas.

O coração foge para a porcelana quente
que exala o aroma amargo recém passado
como se pudesse dar mais tempo ao tempo.

A folha grita suspiros
em melodias quase mudas
enquanto compõe letras
que nunca serão entoadas por voz alguma.

Anseios que antevem mundos coexistentes.
Uma busca irrefreada por expor a carne
sem mais ter que precisar enxergar o sangue.

Cicatrizes despercebidas à olhos nus narram histórias
que pouco tem a ver com maturidade.
O lápis provoca rasuras que contam vivências.

A euforia se esvai.
O tempo pausa a vida, mas continua correndo.

A letargia se limita a dimensões.
Enquanto o café esfria nas palmas
e a alma se dissipa em metonímias.

Não preciso mais me rasgar em lâminas finas
Pois me entrego ao ópio.
Em linhas tortas encharcadas de metáforas.

23 junho 2022

SERÁ QUE TEM ESPAÇO PRA TI EM MIM?

Leia escutando: River Flows in You - Yiruma

Tem um nó na garganta, um emaranhado de palavras emboladas.

Tem algo que dentro do não dito cria vínculos.

Mais uma noite se foi, uma das quais te vi cair no sono empoleirado nos meus braços enquanto tua respiração pesava a cada minuto e o som da TV virava só mais um ruído sem graça passando despercebido.

Cada fio de cabelo teu espalhado descansando no meu corpo, um laço invisível teu em mim. Uma conexão calada. Uma digital tua na minha história.

Somos premeditados.

Um "amor" temporário em que foi traçado um fim ainda no começo

Zero expectativas, zero sentimentos. 

Apenas a frieza de um coração gelado, o calor de um corpo fervente.

Mas, saber da partida não diminui a tensão em ir embora. 

Eu te vejo detalhes enquanto tu espera que eu não divague entre as piadas que tu me conta, eu te percebo e deixo de perceber pra não ter que olhar fundo nos teus olhos. Não querendo te deixar me enxergar de volta.

É que não consigo permitir te deixar mergulhar em mim.

Eu recuo. Me desfaço em limites pré concebidos que nem eu conheço. Me anulo. Deixo ser apenas aquilo que permito ser. Sabendo que sou mais.

 E dói, de certa forma, dói não me ser pra ti. Mesmo sabendo que, talvez, nem tu se seja pra mim. 

Não brinco com metades

Nunca quis ser parte de algo, eu sou inteira. Gosto do todo. Da melhor e da pior forma, sem máscaras e fantasias. Sem mentiras, omissões ou fatos pra agradar. Não tenho medo do obscuro, do oculto. Aprecio a verdade

Mas ando sendo a pior de todas as mentiras pra mim.

Assinei um contrato anti-paixão quando me aproximei sabendo que tu era o tipo de pessoa que me apaixonaria sem muito questionar. Nunca pensei que pudesse levar tão a sério a apatia que prometi sentir. 

E agora é como se quisesse ir contra as próprias crenças limitantes que me impus.

É que é bonito demais me ver no teu olhar escuro e como nosso beijo encaixa no ápice de nós dois. É bom enlaçar meu corpo no teu e descansar a cabeça do mundo enquanto te beijo vez ou outra um beijo longo em qualquer espacinho vago que parece pedir para receber carinho.

É bom me imaginar livre do receio de tentar não me apaixonar e deixar de me preocupar em saber o limite da linha tênue entre o que fazer e não fazer. 

Anda frio e calculista te gostar assim.

E embora preze pela posse de um pódio gelado, sei que o  gelo também queima.

A verdade é que o nó na garganta é sobre isso. Sobre querer se apaixonar e não poder. Não se permitir sem saber o porquê. 

E poxa, é tão fácil te gostar.

Tão fácil me infiltrar na tua rotina sem me importar com tua cara feia, tuas manias estranhas, tua bagunça, tua desordem ou tua chatice lógica demais que destrói minhas ilusões fantasiosas como quem dá um peteleco num castelo de cartas. 

Ainda assim é fácil misturar teu caos no meu.

É fácil largar minha armadura e me permitir ser um bebê que só quer colo enquanto tu me esquenta os pés e eu sorrio observando teu sorriso sem precisar dizer uma palavra. É fácil te ver sonhar e permitir os olhos umidecerem de orgulho por te ver querer viver enquanto eu tento criar gana pra virar o dia.

É simples como tu se encaixa no meu querer diante daquilo que tu percebe que me revelo pra ti, é bonito como tu se importa de uma maneira omissa que acha que eu não percebo e deixo passar.

A verdade, é que eu só queria um espaço nesse meu coração confuso que pudesse se apaixonar pelo teu eu sem inibições ou barreiras. 

Eu só queria que minha mente ansiosa não passasse cada minuto pensando no quanto vale a pena se entregar pra um adeus que hora outra virá.

Não é como se em tudo não houvesse um adeus, pois há. Mas meu coração não entende a lógica matemática de se entregar pra um alguém que quer partir sem nem chegar. Não faz sentido ser inteira pra quem se doa em metades.

Será que devo me permitir, finalmente, por ti me apaixonar?! 

Será que ainda tem espaço pra te ter em mim?!

16 junho 2022

É QUE, TALVEZ, EU TE QUEIRA AQUI


A noite agradável beijava as ondas em forma de uma neblina fantasiada de maresia. O cheiro do mar e o vento gelado preenchiam os espaços reservados às sensações.

O céu estrelado esperava a lua em sua imponência entrar em palco enquanto eu, também espectadora, afundava meus pés descalços na areia macia a passos lentos e, bem... e te imaginava ali a beijar minha testa tal qual a noite beijava o mar.

É que, talvez, eu te quisesse perto o suficiente para dividir o momento que a lua subiu no horizonte se empoleirando entre as nuvens e deixando apenas partes da sua silhueta avermelhada livres para apreciação numa apresentação de tirar o fôlego.

É que, talvez, eu quissese tua mão entrelaçada na minha e as marcas dos teus pés descalços na areia escrevendo em conjunto uma história de outono sem expectativas frustradas sobre futuros quaisquer.

Talvez, mas só talvez, seria interessante te ter aqui comigo, a dividir um feriado qualquer numa praia um tanto deserta fantasiando amores a caminhar sem rumo e seguir a linha da maré sem ter certeza sobre nada.

Ou talvez, inconsequentes deixar de se importar com resfriados ou limites mentais e num lapso impulsivo se jogar no mar. Mergulhar na noite fria a procura de estrelas caídas entre a espuma do quebrar das ondas. 

É, talvez, eu te queira aqui a preencher o som da maré com teu riso frouxo, teu corpo quente e teu papo furado sobre qualquer assunto irrelevante que eu gosto tanto de escutar até o sono me vencer e teu colo virar travesseiro num desses dias que não seja preciso trabalhar logo cedo.

É que a lua conversou comigo hoje e pediu para escrever sobre as coisas que não sei dizer.

Coisas essas que talvez nem deva dizer.

...Talvez.

10 junho 2022

FOI O FRIO NA BARRIGA, DOUTOR

Começou com um arrepio. Um frio na barriga que se prolongou para a espinha, como quando algo pode dar errado e o medo surge percorrendo as sinapses e causando sensações estranhas.

Essa também foi estranha, mas não como a do medo.

Foi um arrepio gostoso, como se o geladinho que sobe pelo corpo tivesse construindo algo, algo que não era sobre fugir ou ficar alerta. Mas sobre borboletas que viriam a congelar em breve.

E construiu. 

Construiu uma armadura de gelo, um pacote blindado para um órgão que bombeia calor.

E acho que no fim, foi sim sobre ficar alerta ou fugir

Ou sobre não gostar muito de borboletas, talvez.

É que meu coração começou a gelar ainda com esse frio na barriga, Doutor.

E quando vi, já era tarde demais.

09 junho 2022

EU PROMETI QUE NÃO TE ESCREVERIA

Leia escutando: Incomplete - James Bay
Eu selei uma promessa comigo.

Eu prometi que sobre ti eu não escreveria. 

Prometi que não desenharia palavras utópicas sobre como tu me faz sentir, prometi que não faria poesias possivelmente cabíveis em outros milhões de sorrisos que não somente o teu.

Mas cá estou eu, quebrando minhas próprias promessas outra vez.

Cá estou com a cabeça lotada de pensamentos desacelerando enquanto descanso o dia num travesseiro que tem teu cheiro, com teu corpo a adormecer bem ao lado do meu. Com teu calor a aquecer meus pés gelados e, talvez, até o coração.

Cá estou quebrando promessas em pensamentos enquanto divago na fuga de uma vida anestesiada pela irrefreável existência do piloto automático com o corpo descansado no teu.

Lutando contra minha própria mente que te recria em mil frases soltas jamais escritas. As quais perfeitamente caberiam no som melódico da tua respiração que preenche a noite enquanto eu uno teu silêncio com as palavras não ditas em acordes compassados do teu eu.

É bonito o delineado do teu corpo com a luz da noite entrando pela janela e como tu se enrola nas cobertas, mas deixa pedacinhos do teu corpo expostos pra equilibrar a temperatura. É bonito teu cabelo espalhado no travesseiro, tão bagunçado quanto todo o teu interior caótico que em metáforas e entrelinhas tu me revela.

É doce a forma como tu descansa sereno, como se nada no mundo pudesse te abalar, não naquele momento. É como se eu me sentisse segura com a tua segurança de que a vida, apesar de mesquinha, ainda tem muito pra entregar.

É bonita a forma como tu desmonta a armadura em lapsos tão rápidos que se não prestar atenção nem dá para perceber. E me desmonta junto sem querer.

Ou como tu sorri sincero... e merda! Que desgraça de sorriso bonito! 

É bonita a forma como tu me beija a testa enquanto segura meu rosto nas tuas mãos...

É, eu falhei. Eu prometi não escrever sobre ti. 

E escrevi.

Prometi que não te eternizaria em palavras, nem as sensações que tu me trás ou os nuances e entrelinhas que te percebo. Prometi que não te reduziria à dois ou três versos quaisquer.

E não te reduzi. 

Talvez esteja eu apenas me permitindo ser inteira.

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