30 outubro 2023

É QUE EU SOU FEITO POEMA, SABE?

Eu sou feito poema, sabe?

Desses cafonas que falam sobre paixão desapegada, mas que se apaixonam na primeira vírgula.

Do tipo que te entrelaça entre versos desconexos, confusos e um tanto sem sentido.

Desses que te pega e vira do avesso por meio de um português ultrapassado e a mistura de significados ambíguos.

Eu sou poema, entenda.

Essas artes meio libertárias, de gente que tá no mundo, mas parece viver bem longe. Numa outra galáxia qualquer.

Sou o feito desses maluco beleza que vivem mil vidas em estrofes mal elaboradas. Obra de lapsos insanos do cotidiano.

É, sou essas estrofes tortas.

Com letra faltando. 
De poeta disléxico. 
Em caneta colorida. 
Com caligrafia duvidosa. 
Sem linhas justificadas ou perfeitamente alinhadas. 

Dessas estrofes que na pressa são transcritas em nota de supermercado. 
No aplicativo de tarefas diárias.
Na contracapa do caderno.
Na folha da prova de biologia.

Estrofes essas borradas pela lágrima.
Ou por café extra forte. 
E logo depois esquecidas.

Sou poesia e nada me tira esse termo.

Essa definição.

Porque entre minha vida e minha arte, sobra de mim, sempre tão pouco.

(Gabrielle Roveda)

27 outubro 2023

APAGA A LUZ, ACENDE A GENTE

Apaga a luz. 

Acende a gente.

Fica e faz de mim teu lar.

Me beija com calma. 

Se deixa aqui, no lado oposto da cama.

Bagunça meus lençóis.

Faz da saudade essência impregnada no travesseiro.

Vem cá, chega mais perto. 

Tão perto que tua barba me cause cócegas.

Deixa o macio do teu lábio encontrar o meu num beijo longo.

E minhas mãos te acariciarem o rosto enquanto gravo cada instante na memória pra não perder nenhum detalhe.

Me despe com o olhar.

E joga teu sorrir pro lado daquele jeito indecente que me faz perder a pose.

Se deixa em mim.

Descansa teu corpo no meu.

Que eu te ouço entre suspiros e sussurros.

Me fita.

Me toca.

Me cansa.

Te canso.

Chega pra perto.

E me cola em ti.

Me pega pela cintura.

Me coloca no colo.

Deixa eu sentir que o mundo pode desabar abaixo dos meus pés se eu estiver segura nas tuas mãos.

No calor do teu abraço.

Vem!

Apaga a luz...

Me olha profundo nos olhos.

E acende de uma vez por todas essa nossa faísca.


(Gabrielle Roveda)

15 agosto 2023

POESIA É COISA DE GENTE TOSCA

 

Poesia é coisa de gente fraca.

Vulnerável.

Solúvel em prosa fantasiosa.

Poesia é coisa de gente tosca!

Mas eu toscamente me desmonto em linhas poéticas.

É que é gostoso ser tosco no papel.

É gostoso me desfazer e refazer em linhas tortas que disfarçam aforismos.

Em jargões ridículos que inibem o real numa metáfora qualquer que quem lê acha bonito, mas no fundo nem entendeu.

Poesia é breve. Passagem e passageira.

E em um mundo que escorre pelas mãos é fuga recriada.

É nudez.

Intimidade.

Introspecção.

Poesia é parque de diversão da solidão.

E eu me desmancho vez ou outra nessa ludicidade de palavras porque viver é uma brincadeira que meu eu adulto levou muito a sério.

E ser poeta é vivenciar a fantasia em que o único brincar que se sabe é com palavras desconexas que dizem tudo sem dizer nada. 

Poesia preenche espaço vazio de gente tosca.

É tapa buraco e mais uma dopamina acessível num mundo afogado de excessos, onde quem não tem poesia cura o espaço do ócio com outras drogas baratas.

É. Poesia é coisa de gente tosca!

É êxtase.

Viagem para fora de si.

É fuga de uma vida em que se assume a pose de um robô articulado em uma sociedade regada pelo egoísmo de que nada se pode esperar, nada se pensa em profundidade, nada se pausa.

Poesia é coisa de quem não tem o que fazer!

Os 15 segundos infindáveis da fútil existência que rola para o lado num deslizar de dedos é muito mais interessante.

A experiência cuspida por dois ou três bocas na tela trincada ocupa com êxito o espaço vazio dentro de si que não se aprendeu a orbitar.

E a poesia, meu bem...

A poesia é apenas coisa de um eu tosco.

E sem essa tosquice de se apagar pra existir a minha vida, com certeza, perderia a graça.


(Gabrielle Roveda)

13 julho 2023

FOI NO SILÊNCIO QUE TU ME GANHOU

Leia escutando Salt Water - Ed Sheeran
Foi no silêncio que tu me ganhou.
Em cada olhar disfarçado.
No canto da tua boca elevado num sorriso contido depois de constatar meus olhos a te procurar também.

Foi no silêncio que tu me ganhou.
Sinal por sinal. 
Nas vezes que distante teu corpo ansiava a procura do meu pelos cantos.
E na tensão crescente que fazia o clima mudar quando nossos corpos se aproximavam.
Na tua respiração que se igualava a minha e mudava o ritmo, acelerando involuntariamente.

Foi sem palavras que tu me ganhou. 
Com teu jeito sem jeito.
E o modo como estufa o peito enquanto ajeita a camiseta.
Com essa tua risada exagerada.
O olhar profundo.
E essa mania de molhar os lábios enquanto fala.
... E como é bonito te ouvir falar do que faz teu coração vibrar.
Teus olhos brilham ao dizer.
Os meus ao te escutar.

Foi no silêncio que tu me ganhou...
Naquele um segundo mais demorado do toque da tua mão na minha.
Na tensão crescente.
No teu modo insistente em se aproximar devagar.
Discreto.
Meio furtivo.
Como quem reluta em invadir meu espaço, mas não hesita em tentar.

E nos detalhes te faço presença.
Te deixo ser intimidade.
Conhecer as bordas do meu eu.
Me desvendar em olhares.
Inundar de ti meus pensamentos.
Roubar meu sono.
Visitar meus sonhos.
E se ocupar da minha arte.

Foi no silêncio que tu me ganhou...
No espaço vago eufórico de quem tem muito para dizer, mas não pode dizer nada.

E é no silêncio que pra ti, eu me entrego.

(Gabrielle Roveda)

09 julho 2023

TAL QUAL PLUTÃO

Leia escutando To Good At Goodbyes - Sam Smith

te faço poesia sem permissão alguma, perdão

te internalizo entre versos descontextualizados que só eu entendo

faço arte com a lembrança que carrego no peito da tua voz rouca e pincelo em aquarela planetas distantes com teu rosto num universo infinito o qual não alcanço 

retrato estrelas, constelações e detalhes minúcias que da tua imagem nunca consigo esquecer

teu sorriso de canto tal qual sol da via láctea, centro gravitacional que me atraí para ti

te construo galáxia no meu mundinho sem sal como se tu feito astronômico pudesse de fato me deixar orbitar

mas não orbito, seja por teimosia ou receio

não desacoplo desse eu distância que inventei de mim

sou feito astronauta, ando perdida em gravidade zero bem longe de casa

luto para retornar à estabilidade enquanto o alerta de oxigênio apita sem descansar entre uma tosse e outra

bip... bip... bip...

a garganta seca, os olhos marejados

encaro o horizonte através do capacete num lapso de suicídio mental querendo, na verdade, não partir dessa ilusão

o vidro desfocando pela fumaça tragada por pulmões desgastados, a paranoia constante se esvaindo em pensamentos interligados que já não fazem mais sentido

a chuva e o vento em redemoinhos dentro de mim marcando o êxtase das borboletas na tua ausência

me refaço planeta atmosférico e revivo outra vez

sobrevivo

aterrizo na minha sarcástica zona de conforto desconfortável

recorro ao mundo real, àquilo que desconheço e finjo entender 

aterro meus pés nesse chão caótico familiar demais 

estou em casa outra vez, mas não queria estar

a cama vazia, o pó acumulando nos livros, o cheiro de incenso de canela pairando no ar, o vidro embaçado enquanto o úmido da noite lentamente se transforma em mofo bem diante dos meus olhos

o mesmo quarto calado, o mesmo cárcere humano

sinto tua falta a aquecer meus pés gelados e talvez o coração

mas teu eu me é caminho longo, viagem interestelar

tal qual plutão

distante...

questionável...

talvez frio demais para poder existir

(Gabrielle Roveda)


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