Mostrando postagens com marcador Autoestima. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Autoestima. Mostrar todas as postagens

11 março 2024

ME REFAÇO EU-LÍRICO

Tem coisas que não sei como dizer, então escrevo.

Escrevo porque ao colocar uma letra após a outra, numa sequência nem sequer programada, vou entendendo o que eu mesma pretendo me dizer.

É como se o papel fosse um psicólogo mudo que me enche de questionamentos em uma folha em branco e eu, com minha ansiedade catastrófica, preencho com pensamentos.

Ali me desnudo.

No papel eu fico nua.

Um processo íntimo de uma guerra civil interna em que meu ego trava batalhas morais com meu insconciente mais oculto e inacessível.

Enquanto os olhos fixos no branco sufocante despem palavras que remontam metáforas, as quais até mesmo eu não consigo entender a complexidade.

É sobre dentro. E dentro é um labirinto que arrepia explorar. 

Pra falar de dentro é preciso artimanhas e rodeios que nem mesmo a mão por trás da arte consegue decifrar.

Danço a caneta sobre as linhas do papel como uma bailarina num solo improvisado enquanto fecho os olhos, respiro fundo e deixo a euforia mover meu corpo no seu ritmo.

A mente ganha um véu esbranquiçado que nada diz.

Um manto silencioso gostoso de escutar.

Não há vozes, não há gritos, não há um mundo cuspindo certo ou errado.

Só há.

E esse "haver" é a pura sensação de estar vivo.

No papel eu re-vivo.

Reencontro meu eu perdido em dogmas, crenças e culturas infiltradas no ar que respiro.

No papel eu me espelho.

Vejo a perspectiva de todos os meus lados ocultos.

Como se pudesse me descrever em perguntas enquanto olho para dentro e posso me ler em resposta...

É nessas rasuras que não rimam, não vendem e não descem redondo em leitores alheios onde me renovo.

Onde me refaço eu-lírico para sobreviver poeta num mundo escasso de poesia.


(Gabrielle Roveda)

30 outubro 2023

É QUE EU SOU FEITO POEMA, SABE?

Eu sou feito poema, sabe?

Desses cafonas que falam sobre paixão desapegada, mas que se apaixonam na primeira vírgula.

Do tipo que te entrelaça entre versos desconexos, confusos e um tanto sem sentido.

Desses que te pega e vira do avesso por meio de um português ultrapassado e a mistura de significados ambíguos.

Eu sou poema, entenda.

Essas artes meio libertárias, de gente que tá no mundo, mas parece viver bem longe. Numa outra galáxia qualquer.

Sou o feito desses maluco beleza que vivem mil vidas em estrofes mal elaboradas. Obra de lapsos insanos do cotidiano.

É, sou essas estrofes tortas.

Com letra faltando. 
De poeta disléxico. 
Em caneta colorida. 
Com caligrafia duvidosa. 
Sem linhas justificadas ou perfeitamente alinhadas. 

Dessas estrofes que na pressa são transcritas em nota de supermercado. 
No aplicativo de tarefas diárias.
Na contracapa do caderno.
Na folha da prova de biologia.

Estrofes essas borradas pela lágrima.
Ou por café extra forte. 
E logo depois esquecidas.

Sou poesia e nada me tira esse termo.

Essa definição.

Porque entre minha vida e minha arte, sobra de mim, sempre tão pouco.

(Gabrielle Roveda)

03 novembro 2020

ONDE FOI PARAR MEU EU

Sinceramente.

Onde foi que eu me perdi?

Em que parte do caminho deixei minha essência esquecida entre paralelepípedos de uma fútil existência?

Onde foi parar meu riso frouxo e aquela animação babaca de quem via a vida colorida?

Tá tudo tão preto no branco. 

Tão tons de cinza. 

Sem cor. Sem graça. 

Cadê meu eu perdida em embaraços sempre tão concertáveis. Onde fui parar.

Não tenho memória pra lembrar denominações de palavras quaisquer e jogá-las no papel como outrora, não consigo lembrar nem meu nome aliás.

Não sei quem sou.

Ou fui.

Ou serei.

Pudera eu ter sido ilusão todo esse tempo e meu eu ser a cor da escuridão sem nem pensar? Será que fui ausência de mim e só agora percebi ou sequer fui eu, fadada a fantasia do meu ser que construí em pilares tão fracos?

Quem fui será quem sou?

Teria eu orgulho do meu agora num eu futuro então?

Não sei que caminho seguir, que outras essências perder entre pedras da vida para me ganhar outra vez. 

Se acaso souber onde me encontro, faça um favor, me mande de volta pra mim.

Estou com saudades de ser eu outra vez.

04 agosto 2020

NÃO GOSTO DE COISAS APERTADAS

Passei muito tempo me encolhendo. Em sapatos apertados, em lugares do qual não pertencia, em corações miúdos, em opiniões pequenas. Mas chega uma hora que o diminuto incomoda, os calos doem, o sangue estanca no elástico, fica vermelho, depois roxo, ganha a cor do desespero, amortece os sentidos e aí, se não impedir é preciso amputar. Um longo caminho da prisão à invalidez.

Não gosto de coisas apertadas, prefiro meus pés descalços à tocar as texturas do mundo, meu moletom largo, meus cabelos ao vento, a janela do carro aberta, o poema desprendido de métricas. Nunca gostei de crenças limitantes, nem de padrões infiltrados com malícia e absorvidos na inocência. Não é sobre sapatos, roupas ou gaiolas de concreto que encarceram corpos nas rotinas da cidade grande, mas sobre um sentido de liberdade introspectivo. 

Não é sobre o mundo de fora, é sobre o mundo de dentro.

Nada que me prende me tem por tempo demais, nada que me limite me faz pertencer. Se ao invés de limitar você pudesse voar junto? Nada é posse, nem a gente. O mundo não é nosso, não somos do mundo, consegue compreender? Somos parte, passagem, instantes de um todo complexo. Somos como grãos de areia na composição da costa, dias do refresco do mar, outros do sol escaldante, partes de um todo, mas ainda assim únicos e nossos.

Sabe, a liberdade é um acúmulo de pequenos fragmentos de coragem. Coragem para aceitar quem se é, o que se quer. Nos colocamos diante de situações que não condizem com a gente por ambição em encarar uma vida que não é nossa. Liberdade é sobre você na sua própria companhia, sobre ouvir o que seu eu longe de arquétipos, distante da sombra social, tem a dizer sobre você. 

Não me fale que é livre porque viajou o mundo se não sabe como viajar para dentro de si. Não me diga que conhece as sete maravilhas do planeta Terra se não consegue apreciar a maravilha da sua própria companhia. 

Por favor, não me diga que é livre quando abriga seu eu maior em anfitriões minúsculos.

12 fevereiro 2020

E SE A GENTE VIVESSE DA ESSÊNCIA?

E se, talvez, a gente enxergasse as coisas como são, sem complicar tanto? 

E se ao invés de insistir em negar amor ao coração por medo das consequências da dor, o entregássemos sem dó?

E se o mundo fosse menos cheio de complexidades cafonas que infiltramos no dia a dia para fugir dos receios bobos que inventamos? 

E se a gente pudesse realmente viver da essência do que somos sem seguir as regras idiotas que nossa mente babaca impõe?

E se amor não for tão romanticamente impossível e inalcançável quanto Shakespeare narra? E se não for tão decadente quanto Bukowski dita? E se for, apenas amor, afinal? Sem definições ou pré conceitos?

E se os sentimentos não dependessem de descrições e se mesclassem na importância do momento e não de fatos passados e comprovados? Seria diferente sentir? E se não houvesse nada pelo que se basear, você ainda sentiria, não sentiria?

E se os livros não criassem fantasias de uma vida maravilhosa onde heróis passam fome, mas no final sempre vencem? E se a televisão não implantasse a insatisfação de ser quem se é na pupila do seu olho inocente em cada novo take? Você ainda seria a mesma pessoa que é?

E se não houvessem regras delimitando o certo ou errado e unicamente, sem influências, fosse apenas seu cérebro quem decidisse o que melhor se aplica a você, ainda faria as mesmas escolhas? 

E se a vida tomasse outro rumo, se não houvesse civilização e ética, já se perguntou quem seria você? 

Se não fossem tantas burocracias criadas, tantas limitações exercidas por cérebros que se prendem a dogmas internos talvez não precisássemos lutar contra um eu aprisionado. Talvez pudéssemos provar o verdadeiro gosto da liberdade do ser. 

Se mesmo falho, cada ser humano soubesse do seu lugar no universo, da sua pequena e infinita grandeza sem o valor da ignorância e do egoísmo, sendo realmente humanos de fato, a crueldade não seria bandeira hasteada.

Será que algum dia a gente ainda vai poder viver de essência?


14 dezembro 2019

COM QUANTOS PENSAMENTOS SE FAZ UMA NOITE?

O limite da insanidade é quando se cai no sono.

Um vazio que nos preenche pouco a pouco na profundidade de cada descansar de pálpebras, o nada que vem fazer morada enquanto o mundo passa despercebido em lapsos que vão ficando cada vez mais distantes. É como uma viagem para lugar nenhum, onde os sentimentos vão para descansar do corpo que os castiga com crueldade, segundo por segundo, todos os dias. 

É reconfortante. Revitalizador, diriam alguns.

Mas e quando não há sono? 

Quando não se encontra espaço para descansar os sentidos no turbilhão interno que antecede um novo amanhecer? Como é possível preencher o vazio da constância insistente do pensar? O que se faz quando não há pausa para uma cabeça lotada em busca de um vazio acobertador?

Com quantos pensamentos se faz essas noites?

Quem é o delimitador da nossa ansiedade entre pés nervosos a rasgar os lençóis e desfiar os cobertores enquanto massacramos nosso interior na busca incessante por respostas que virão hora ou outra, mas nossa incerteza irracional de um meio sono não nos deixa esperar? 

Qual é, então, o limite da insanidade quando o sono abandona o corpo físico e a escuridão da noite não neutraliza mais os sentidos?


27 novembro 2019

VOCÊ É AQUILO QUE NINGUÉM VÊ

Você é o apelido carinhoso que sua mãe lhe deu na infância, os brinquedos que quebrou antes mesmo de poder aproveitar, os palavrões que xingou no mudo a professora, o aperto ansioso no peito e as mãos tremendo antes do vestibular. Você é o seu perfume favorito que está no fim, seu sonho de conhecer Berlim, Londres ou Acapulco. Sua mania de arrancar as cutículas com os dentes, seu jeito de ocupar a cama toda de madrugada. Você é seu braço embaixo do travesseiro enquanto dorme, o sorriso no rosto ao sentir o aroma da primavera e o desgosto de começar a espirrar logo em seguida. 

Você é o amor inacabado que deixou de lado e ainda lembra, o renascer depois do susto daquele quase fatal acidente. Você é aquela mania de dançar no banho e cantar para o chuveiro pensando que ninguém vai escutar, é o jeito torto de cortar legumes, a falta de sal ou o excesso de tempero naquela tentativa de receita vista na internet.

Você é o que você faz. É o violão com a corda arrebentada no canto a pegar pó depois de soltar notas desafinadas ao tentar aprender algo novo. É a dor de cabeça forte depois de horas encarando a luz da tela do seu computador. Você é o beijo que não foi dado, o arrependimento de não ter tentado. É o ar que prendeu para desacelerar o coração quando viu seu ex passar, o borbulhar do estômago numa nova paixão. É o êxtase de apreciar a natureza, a raiva de não se sentir bem em meio as pessoas.

Você é aquilo que percorre sua lembrança. A dor que ainda não cessou, a lágrima que não quer secar, a saudade da comida da mamãe, o eu te amo não dito. Você é o abraço inesperado, a força dada a alguém mesmo fraquejando, a moeda ao morador de rua, o sorriso gentil para uma criança. Você é o que você dispõe. Você é o modo como leva a vida, calmo e sem muita afobação. A coragem em se entregar sem medo, a mania de doar amor sem querer nada em troca.

Você é os gritos que ecoam no silêncio, a garganta que prende suas angústias, as palavras que não sabe como dizer. É o ódio por não ter alcançado, a sensação de incompetência por não conseguir seguir em frente, o jeito frio de levar uma briga. Você é o desprezo de uma sociedade robotizada, a raiva do partido político, a opinião sobre o mundo. Você é o conhecimento que adquiriu, o esforço contínuo em progredir, o pão fresquinho do mercado que finaliza um dia longo em companhia de um café bem quente.

Você é tudo aquilo que viu passar. É o pé de laranja-lima em frente a sua velha casa, o latido do seu cachorro, os pelos brancos do seu gato na sua calça preta. Você é aquele que caminha em direção a maturidade, aquele que rema e mesmo cansado não desiste. Aquele que enfrenta os desafios do dia forçando um sorriso no rosto e ao chegar em casa desaba sem frescura.

Você é o rosto que esconde na fotografia, o olho vermelho depois de uma noite longa. Você é aquilo pelo que luta, é o sonho despedaçado e o desejo realizado. Você é o propósito que migra aí dentro. Você é a verdade da sua história, é os direitos que tem, as obrigações que lhe escravizam, as responsabilidades que assume. Você é o que você quer, sonha, recruta, lê, reivindica, assiste, rabisca. Você é o que ninguém vê.

29 maio 2019

VAMOS FINGIR QUE ESTÁ TUDO BEM

Vamos fingir que tudo está completamente bem. Que o dia nublado continua sendo sinônimo de brincar e ver formas aleatórias nas nuvens de algodão. Vamos fingir que a multidão não sufoca, o piscar das luzes não desfoca a visão e a música alta é totalmente agradável aos ouvidos. Que a ardência que desce seca na garganta, depois de um gole amargo é mais gostosa que o gelar dos dentes num picolé caseiro feito com suco de saquinho. Que palhaços ainda tem as piadas mais engraçadas e maça do amor é apenas uma fruta com cobertura doce e não uma metáfora sentimental.

Vamos fingir que ser gente grande é divertido. Que aguentar o chefe mal humorado é melhor que suportar tomar banho quente depois de ralar os joelhos. Que a demorada fila do banco é muito mais divertida que a ansiedade que fica ao esperar para entrar no carrinho bate-bate. Vamos fingir que as contas são divertidas, que ambientes para fumantes não são sufocantes, que o gosto da cerveja é docinho e que bares não são oceanos para afogar mágoas. Porque afinal, basta fingir que está tudo bem e as únicas mágoas serão ter que parar de comer balas e escovar os dentes ou dormir cedinho para ver desenho animado no outro dia pela manhã.

Vamos fazer de conta que enfrentar dificuldades é como a pedrinha na amarelinha que é preciso pular numa perna só para ultrapassar e que nem o céu é o limite, porque não há limites para a criatividade. Que coração partido se cola com super bonder, que nossos pedaços são quebra-cabeças com peças faltando, mas que perder elas por aí não é tão importante quanto imaginar o que falta na figura e bagunçar tudo de novo. 

Vamos brincar que a vida é faz de conta, que fadas com suas varinhas mágicas vão trazer de volta aqueles que partiram. Que pessoas imortais existem e bruxas podem dar poções de felicidade. Que florestas guardam segredos, que piratas enterram tesouros com mapas perdidos e que não é só nos livros onde o viver é colorido. Vamos fingir que histórias infantis não são pseudo-ensinamentos para adultos, são apenas contos bonitinhos.

Vamos fechar os olhos e imaginar que é só rebobinar a fita e o lado gelado da cama vai estar preenchido novamente. Vamos fingir que o amor não cega, que o perfume não gruda e lembranças não voltam para assombrar. Que músicas não viram trilha sonora de momentos e que quando eles se vão escutar novamente é tortura. Que saudade já não tem um novo significado muito mais dolorido e perdoar não exige muito mais de si do que do outro.

Vamos fingir que a humanidade não sufoca, que padrões não são regras na nossa cabeça tola que segue inconscientemente as ditaduras camufladas. Que política é apenas show de horrores e votar não define um passo sequer da nossa trajetória, que somos independentes e liberdade não tem um significado muito mais profundo que apenas a definição denotativa. Que o trânsito trancado é tão reconfortante quanto andar de patinete ou bicicleta no parque e o cheiro de diesel queimado é dez vezes melhor que o aroma das flores que te fazem ter crises de espirros.

Vamos fingir que está tudo bem, que crescer é divertido e que daqui em diante só melhora. Vamos deitar a cabeça no travesseiro e mais uma vez preencher o sono de nostalgia, fechar os olhos e doer no peito a certeza de que o que resta é o passo a frente e que o que ficou foi apenas o início do fim.

14 fevereiro 2019

ANTES DO OUTRO É PRECISO AMAR A SI

Amor é cuidado, cuidado é presença, presença é estar e estar é ser.
Ser é complexidade.  

Diante dessa pequena analogia desmitificamos o amor romântico dependente do outro implantado em nós desde o útero. Não é preciso de algo ou alguém para se sentir completo, ninguém veio ao mundo pela metade. 

Amar não é feito de matemática, não se soma um mais um e se resulta em amor. Não há adições, não de algum ser pelo menos. Há sim, um completo e intenso sentimento de infinidade particular que, se não desenvolvido, resulta em carência emocional. O amor começa com uma complexa e trabalhosa viagem para dentro de si buscando o ser, apenas.

Amor é cuidado, como já dito. É olhar para dentro de si, reconhecer todos os obstáculos que fizemos nosso frágil e imaturo coração enfrentar em tempos passados, tudo por não entender aquilo que a fonte dos nossos instintos dizia. Muitos dos perrengues que já nos submetemos não foram escolhas pensadas, mas sim as regras ditadas sem eira nem beira que tanto escutamos ou lemos de todos os lados e julgamos ser o modelo certo de agir somente por costumes. Cuidar da mente e entender o próprio corpo é desapegar de ditos e crenças alheias para só assim poder ser presença em si. 

Cuidado é presença. Estar presente em si é entender que o que foi formou e o que vai vir formará um todo, mas o aqui, o agora é o que somos, é o tempo e espaço mais importante. Viver o momento e ter ciência de si no universo é praticar aquilo que na viagem do autoconhecimento aprendemos na teoria. Demoramos uma vida inteira e talvez nunca saberemos quem realmente somos, viver no pretérito e mistificar um futuro incerto serão somente grades de uma prisão que nós mesmos nos submeteremos. E pode ter certeza, que armadilhas internas são as piores de fugir. 

O ser é constituído do ato de estar presente, não aquilo que foi ou será. Você não é o que aconteceu anos atrás e nem aquilo que almeja com tanta convicção, você pode vir a ser o seu sonho ou meta. Mas hoje, você é o momento e o seu momento merece seu amor. 

Quando digo para aprender a amar a si antes de doar esse amor ao outro, digo para ter maturidade emocional e saber quem se é antes de enfrentar o corpo e a mente do outro. Um amor composto por pessoas incompletas só gera um relacionamento cheio de falhas. Amar não é um ato direcionado a algo ou alguém em especial, é apenas essência de quem sente com o coração. Sem rótulos, sem esperar do outro o que talvez, queira é de si.

Amar é transbordar o sentimento de dentro para fora e ter, diante disso, necessidade de compartilhar. É entender que não é preciso gritar para o mundo que você é a melhor pessoa da face da Terra e que por você ser o próprio amor da sua vida ou a panela que não precisa de tampa, que é totalmente autossuficiente e não depende do carinho de ninguém. Pelo contrário, isso não é amor próprio, é autonegação. 

Fomos criados como seres dependentes e sociais, afinal, ninguém conquista o próprio mundo sozinho, em toda a sua história há e sempre haverá interferência externa. Se nos foi dado o dom de compreender o sentimento, diferente apenas do simples sentir, que sejamos espertos e não nos privemos do instinto primordial da nossa espécie. 

Afinal, laranja nenhuma vem partida ao meio tendo que encontrar alguma metade.


- Gabrielle Roveda

22 agosto 2017

GERAÇÃO CARÊNCIA

Talvez vá soar rude, mas é a realidade que me surge: estamos vivendo numa geração carente de atenção. Uma geração de pessoas tão, mas tão vazias por dentro que só sabem buscar no exterior uma forma de preencher esse buraco aberto e acabam se encontrando na crítica assertiva de outros ao tentar suprir a própria carência emocional. 

Queria é ter uma estatística matemática do futuro dessa busca interminável, digo, aonde tudo isso vai parar? Ao que nos leva, no final?

Estamos vivendo a era da aprovação alheia e esquecendo do crescimento pessoal por si próprio. Pense, quanto mais se busca um favoritismo, mais distante de quem se é ficamos. O que eu quero colocar em evidência é justamente essa mania incessante de ser a idealização de algo que não é você porque agrada o outro. Nessa onda de chamar atenção acabamos esquecendo quem somos de verdade.

Esquecemos o que é ficar só, o que é chamar nosso pensamento para conversar numa noite de insônia. Desaprendemos o valor da solitude ao deixar o exterior tomar conta do nosso ser. Não é preciso ser dependente de algo ou alguém, não é preciso agradar para enxergar a felicidade. 

Somos uma geração que esqueceu princípios e não digo para se prender a regras e ao passado, mas se filiar com fé no valor do autoconhecimento. Saber quem se é de verdade, para além dos likes e da aprovação alheia. Reaprender a gostar do cru, daquilo que se enxerga sem filtro, do coração que se aceita sem padronizações. 

Somos uma geração dependente do mundo, carente de toque, afeto e carinho mascarados por futilidades. Uma geração que esqueceu o senso de atitude e se vê mergulhada na facilidade de levar as coisas adiante sem muito questionar, que arrisca pensando no mérito e encontra arrependimento quando as coisas finalmente desabam. 

Uma geração que constrói pilares em corpos alheios e esquece de, antes, solidificar seu próprio ser. 

- Gabrielle Roveda

26 junho 2017

VOCÊ É A PESSOA QUE GOSTARIA DE CONHECER?

Frequentemente colocamos um padrão de personalidade perfeita inconsciente na nossa mente, isso não é ruim, é involuntário. Com o tempo vamos conhecendo pessoas e filtrando personalidades que queremos manter por perto, mas você já parou para pensar que quem você deseja ter por perto deveria ser, antes de tudo, você mesma? O que eu quero dizer, embora um pouco confuso, é que antes de buscarmos essas tais pessoas deveríamos nos questionar se somos aquilo que queremos ter por perto também. 

Fácil é você desejar mil coisas de alguém, mas não saber ser um terço delas para o outro. Se a vida fosse assim, apenas receberíamos e nada entregaríamos e não é bem assim que funciona. Aí está o momento em que entra a empatia nessa história toda. A pergunta que fica depois desse raciocínio breve é: você é a pessoa que gostaria de conhecer?

Digo, você realmente faz aquilo tudo que deseja que façam por você? Age como gostaria que agissem diante dos seus dramas, das suas novidades, do seu jeito de levar o mundo? Usa as palavras pensando no impacto que elas podem ter na vida alheia? Se não, como é que deseja que alguém faça tudo isso por você? A questão final beira a reciprocidade, empatia e correspondência de fato.

Somos tentados a exigir atitudes diante de várias situações, muitas vezes aceitamos calados, mas no interior aquela vontadezinha de ter recebido um carinho maior diante de alguma situação fica incomodando... porém, pense ao contrário, e se fosse você, teria agido diferente? Realmente? Seja sincero consigo mesmo. 

Reclamar do mundo é tão simples, a gente costuma dizer que o pessoal na rua não sorri, não percebe que a vida vai além da rotina e das obrigações, mas você já sorriu para um estranho hoje? Já fez sua boa ação do dia, nem que seja dar qualquer informação ou ajuda sobre algo que sabe? Compartilhar boas atitudes, faz com que o universo lhe traga boas coisas também. Pense comigo, nosso mundinho é uma grande bola que gira incansavelmente, consequentemente nesse círculo vicioso, coisas vão, mas voltam de alguma forma também.

Empatia deveria ser o assunto do século, sem ela o mundo é mesquinho demais para sobreviver a arrogância humana. E a partir dela contatamos outros sentimentos humanos que nos inserem numa sociedade, definitivamente, mais humana. Onde a ignorância e arrogância dão lugar à compreensão emocional, à pessoas que pensam mais nas próprias atitudes diante do mundo e sabem interpretar as futuras consequências dos próprios atos. 

Não se faz alguma coisa esperando algo igual ou melhor em troca, mas é importante saber quem é você nesse planetinha, qual o seu lugar nesse mundo e o quanto acha que pode colaborar para tudo ficar mais agradável ao seu redor. Se você parar, olhar para si e concluir que é a pessoa que gostaria de conhecer, muito bem. Agora, se você acha que o que deseja, você mesmo não tem, passe a se auto-conhecer e praticar aquilo que espera antes de exigir isso de alguém.

15 maio 2017

MONÓLOGO NOTURNO DE UMA DEPRESSIVA

Não sei se você já sentiu como se fosse um grande e desnecessário erro, como se um grande vazio a preenchesse, mesmo que isso possa soar contraditório. Não sei se você já sentiu algo te corroendo aos poucos sem descanso, te desmanchando em pedaços dentro de um inteiro, do seu inteiro. Algo que se espalha dentro de si e te destrói, como um soro aplicado na veia que vai se distribuindo pouco a pouco e você consegue sentir aquele incômodo por todos os locais os quais ele percorre. Mas não há como fugir.

Não tem como fazer as malas e se despedir de si. Não há como mandar embora esse vazio horrível que te preenche aos poucos. É um enorme canto escuro que chega, se aloja no interior e não pede licença. Um enorme emaranhado negro que te preenche liberando todas aquelas benditas borboletas no estômago, algo que vem e acaba com o jardinzinho das coisas boas que cultivou aí dentro. Algo que vem para te matar aos poucos, sem consentimento. 

E isso dói, dói porque nenhuma lágrima expulsa esse vazio. Se você pudesse olhar para dentro de mim veria o estrago, notaria no meu sorriso amarelo o quanto estou sofrendo quieta e tentando ignorar a confusão que se alojou em mim. Essa é uma daquelas noites que a gente não aguenta mais, sabe? Um daqueles dias que a gente buscou não desabar por 24 horas, mas talvez uma palavra qualquer retire o último dos pilares de quem tentou se manter forte e tudo desabe. 

Hoje eu me perguntei se o dia lá fora tinha sido bonito, se o sol tinha surgido, pois aqui dentro anda tudo tão nublado que eu nem sei mais qual a sensação de um dia bom. E eu não vi o sol surgir, não só porque aqui dentro armou temporal. Não vi porque me infiltrei nas minhas cobertas, fiz morada na minha cama o dia inteiro e lá fiquei, isolada do mundo, pedindo ajuda em silêncio. Uma ajuda que nem eu sequer sei se realmente quero. 

Ninguém notou. As pessoas nunca notam, mas que culpa eles tem, não é? A gente aprende bem a disfarçar sorrisos, a fazer brincadeiras e fingir que sempre está tudo bem. Ninguém entende como é possível passar madrugadas acordada, sem fazer nada interessante, apenas divagar e mesmo assim ter forças para enfrentar um dia cheio de responsabilidades, mesmo assim não poder fugir da vida que se leva. Ninguém entende a falta de apetite ou outras vezes a compulsão por preencher um vazio, como se qualquer coisa pudesse resolver o problema.

Nada nunca resolve. A gente pode passar horas chorando, dias disfarçando, chega um momento que as frases sem final se obrigam a ser concluídas com alguma pontuação. Não sei se você já se sentiu assim, sem um rumo para seguir, meio que andando na contramão do mundo, meio que apenas seguindo o fluxo. Não sei se você já se sentiu numa grande e contraditória confusão que não tem fim, numa bola de neve descendo um precipício que a cada dia cresce mais.

Tenho andado triste, as coisas que antes me animavam, hoje já não cumprem seu papel. Acho que me perdi na minha própria confusão, no meu próprio vazio, nessa crise existencial. Não sei se você já se sentiu assim, não sei se a depressão já bateu a sua porta e você passou a sentir como se toda a sua vida fosse um enorme erro. Mas se sim, conhece bem a sensação de conformidade que vem agora, ao fechar os olhos e finalmente descansar a cabeça num travesseiro encharcado de lágrimas, aguardando o novo dia com o que restou de esperança.  


- Gabrielle Roveda

17 abril 2017

QUERIA SABER LIDAR COM O MEU EU

Tem dias que o mundo vira do avesso, mas você continua lá, no lado certo. Intacta. Como se estivesse atada a raízes que de tão fortes te impedem de lidar com os próprios problemas. É aí que você se vê num universo sem saída e as coisas começam a desabar sobre a sua cabeça sem dó, se espalham pelo chão, se estilhaçam aos seus pés e você assiste tudo como um espectador calado que só consegue observar. O pior é que tudo parece ser visto de dentro de uma redoma de vidro, de um espaço, onde só há você e o vazio, demarcado por algo que não te deixa ir além. Algo que ao mesmo tempo que te protege, te limita.

Isso tudo só acontece porque você tá fora do eixo, não seguiu a linha dos sentimentos, não virou suficiente o volante naquela curva perigosa e perdeu o rumo da situação. Talvez seja, simplesmente, porque esqueceu de prestar atenção na sinalização da estrada e não notou aquela placa que avisava o perigo iminente. E agora você não sabe mais o que fazer, não sabe como voltar para o ponto de equilíbrio, não consegue mais encontrar o caminho de volta porque anda tudo revirado. Tudo resumido a uma confusão sem pé nem cabeça, uma bagunça que não se sabe por onde começar para reorganizar.

Queria saber lidar melhor com toda essa desordem que eu mesma crio, queria não confundir ainda mais as coisas aqui dentro. Ir além dessa redoma que engaiola as minhas atitudes, passar pela fronteira que limita as minhas vontades pelo medo dos monstros que eu mesma crio. Queria saber lidar com o meu eu, com toda essa euforia engaiolada por sentimentos adversos. Queria entender essa catástrofe interna do meu ser, que de tão trágico, chega a ser cômico.

Queria saber lidar com essa maldita ansiedade que me engole os sentidos, que volta e meia cria uma bola gigante na garganta e agita o coração em pulsações descontroladas, me fazendo agir com impulso e, na sequência, gera ódio pelos meus próprios atos. Gera arrependimentos que me amarguram e me isolam, enquanto tento cortar aquelas raízes que continuam a me prender, quando tento consertar todos os meus erros.

Queria saber lidar com o meu mundo conturbado sem ter que incluir quem de nada tem a ver com os meus problemas, e saber lidar com esse show de mágica monstruoso onde minha alma é que está na caixa que vai ser cortada ao meio. É como se eu sentisse o sangue escorrer e soubesse que, mesmo em pedaços, ainda conseguiria reestruturar o que já foi colocado abaixo.

Eu tenho esperanças, sempre tive, não dá pra desistir sem lutar. Afinal, a gente nunca perde essa essência bonita de tentar mais uma vez, de dar uma segunda chance para nós mesmos. Talvez um dia eu ainda aprenda a lidar com o meu eu, até lá vou na tentativa e erro. Talvez um dia eu consiga abandonar essa redoma de vidro e me desprenda dessas raízes que me obrigam a assistir um espetáculo onde eu é que sou a protagonista e meus próprios monstros tentam me dominar. 

31 março 2017

TÁ FALTANDO EMPATIA NO MUNDO

Hoje me questionei sobre o que é humanidade realmente, no sentido mais profundo da palavra. Procurei e só encontrei falsas promessas no dicionário porque, veja bem, no mundo real a definição é outra. Somos um conjunto de seres com características específicas para a ciência, mas numa explicação mais conotativa somos o resumo de um conjunto de empatas.

É aí que me pergunto: onde estão os seres humanos então? Digo, humanos de fato. Praticantes da empatia, do amor ao próximo, aqueles seres quase em extinção que enxergam além do próprio horizonte visto através de um vidro fosco? Sou apenas eu que os busco e raramente os encontro?

Empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro de forma figurativa e, apesar disso parecer tão fútil visto por cima, é por causa da falta dessa habilidade emocional que o mundo anda tão fora de eixo. É por causa da cegueira dessa "humanidade"que o individualismo é bandeira hasteada. O dia em que os seres humanos entenderem que o egoísmo adoece os sentidos, serão menos cegos, surdos e mudos para o próprio mundo e, finalmente, farão jus à palavra que os define no dicionário. 

Tá faltando é empatia no mundo, não é o amor que faz falta. Amar é ligação afetiva e, pense comigo, mesmo esse sentimento necessita extremamente dessa habilidade de compreensão para fluir. Tá faltando é gente que assume seu papel de ser, realmente, humano. Empatia não é só sobre enxergar como seria estar na pele de alguém, vai além de um "eu sei como você se sente". Tá faltando é gente que assume o papel do outro cognitiva, emocional e compassivamente, sem frescuras.

É sobre abraçar a alma alheia num abraço sincero, sobre sentir com o outro, não como o outro. É sobre ter maturidade o suficiente para entender que ser empata é uma das funções mais importantes da nossa inteligência. É abrir mão desse jogo insano de sofrimento individualista, onde se força o mundo a dar o que não está disposto nem a oferecer, simplesmente por egoísmo próprio.

Tá faltando empatia no mundo, tá faltando gente que quebre o limite fosco do horizonte e enxergue mais do que o campo de visão mostra. Ta faltando é muito mais gente que julga menos e compreende mais, mais gente que sente com o coração a vida do outro e não ignora a dor, mas ajuda a moldá-la. O mundo carece de seres humanos verdadeiramente inclusos nessa humanidade não biológica.


- Gabrielle Roveda

29 dezembro 2016

É TEMPO DE COLOCAR A VIDA DE VOLTA A VIVER

É quase meia-noite e falta pouco tempo até o ano acabar e o relógio marcar 23:59 do último dia do calendário.  Tempo em que se repara no tempo: perdido, aproveitado, deixado de lado, reclamado, tolerado, apressado. Tempo em que se fala de esperança como foi falado há cerca de trezentos e tantos dias atrás, onde tudo eram metas no papel que, talvez, hoje ainda nem tenham sido concluídas. Falamos de tempo quando nos falta o dito cujo, falamos de tempo quando achamos que o merecemos ter quando, na verdade, ele esteve ali o "tempo" todo e passou despercebido. 

Acho irônica essa época do ano: parece que as pessoas ao invés de se desligarem para relaxar, se ligam. Apertam o botãozinho de "acordei para a vida" e descobrem que os dias todos que ficaram para trás não foram úteis para o que mais traria felicidade. Nos enchemos de esperança ao findar de um ano como se um milagre fosse resolver nossos problemas e esquecemos que para conseguir tudo aquilo que almejamos de barriga cheia é preciso muito esforço e uma dose grande de esperança contínua. Não basta almejar na empolgação do momento e deixar essa vontade para depois porque a desculpa, talvez, seja não ter tanto "tempo".

28 novembro 2016

ELA NÃO É TUDO ISSO, MAS É ELA MESMA

Não é como se fosse um projeto de boneca perfeita feita exatamente para agradar, pelo contrário cara, ela não é perfeita e nem quer ser. Ela não é tudo isso que mostram nas revistas, o corpo não é escultural e o mais bonito é que photoshop nenhum esconde as cicatrizes nos joelhos de menina pirralha. Ela não é nem de longe o modelo de exemplo da sociedade, não tem os olhos mais lindos do mundo, mas tem o olhar mais sincero de todos e isso é o que realmente vale. 

Não nasceu pré-determinada, mal sabe o que fazer do próprio futuro mesmo que siga em frente com os objetivos. É desastrada e não tem vergonha de admitir as próprias falhas. Ela é sincera, sabe o que não quer e não lida bem entre escolher aquilo que quer. É uma pessoa qualquer cheia de sonhos e desapontamentos que vive batendo o dedinho na quina dos móveis quando esquece o horário de acordar. Ela é atrasada, desengonçada, anda esquisito e tem manias estranhas, mas é ela mesma.

Ela não é tudo isso que vivem procurando por aí, não tem o melhor cabelo do mundo e o sorriso nem é tão bonitinho assim, porém é extremamente espontâneo. Ela é leve o suficiente para parecer linda sem ser tudo isso, tem uma voz que contagia e uma risada que faz o mundo querer rir junto. Não, ela não anda com roupas da moda, prefere calça de moletom ou cara limpa no dia-a-dia e tudo isso, ao invés de deixá-la ridícula, a deixa cada vez mais linda.

Ela não se importa com as peculiaridades da ditadura da beleza, ela tem personalidade própria para não se deixar levar pela poluição informativa. Não é do tipo que chama atenção, quando passa quase ninguém olha e talvez, quando olhem vão rir do modo descontraído de se portar. Mal sabem esses que o mais importante não é beirar o ridículo para o mundo e sim, sentir-se bem consigo mesma. E ela preza a sua autoestima, ela se conhece tão bem que não se abala com as fofocas corridas. 

Ela é tão ela mesma que gera inveja ao redor, uma inveja que ela transforma em amor no filtro da sabedoria e envia de volta. Ela não segue padrões expostos, faz um pouco de tudo por simples prazer e nesse tudo, nada é certo. Ela tenta e não desiste de ser diferente na vida, não quer andar na linha tênue robotizada da humanidade, ela é diferente. 

É extravagante, despreocupada, não sente vergonha de expor sua criança interior na vida adulta, é decidida, tem um foco extremo e uma preguiça incontrolável. Ela não é um exemplo a ser seguido, não merece aplausos por seus feitos e não é dona de uma vida invejável. Ela é simplesmente ela mesma, sem mistérios. Por fora um poço de liberdade, uma vida aberta sem medo de expor seus sentimentos, por dentro um labirinto infinito de descobertas cada vez mais incríveis.

Não se deixa abalar pelos desprezos ocultos, não se importa com os olhares tortos. Ela retribuí o mundo sorrindo, é grata por cada novo dia. Por cada novo brilho no olhar e ensinamento diário. Ela é dona de si, preza o autoconhecimento e não tem vergonha de dizer que prefere um livro à uma festa até a madrugada. Bebe suco de laranja em meio a gente bêbada de dores esquecidas e sabe ser feliz sem precisar de outras essências além da dela. Cara, ela não é tudo isso que almejam por aí, mas o que faz dela tão interessante é que é apenas, ela mesma.

- Gabrielle Roveda

06 outubro 2016

VOCÊ QUE JÁ EXPERIMENTOU A VIDA, TEM GOSTO DE QUE?

Vejo tantos amores vagos, tanta rotina sem rumo, tanto caminho sem nexo, tantos porquês sem poréns e me pergunto: quem, no meio disso tudo, já experimentou viver? Digo, viver de fato, além do que aparenta. É tanta obrigação lá, responsabilidades aqui, cumprir horários ali e o tempo para a vida de fato acaba sendo esquecido. Parece que vivemos uma vida para só os outros tomarem proveito e esquecemos que temos um prazo de validade no mundo, uma data limite imprevisível. 

Às vezes fico pensando que nossa grandeza principal como seres humanos mais nos leva ao extermínio, do que à glória. De que vale uma vida inteira dedicada fortemente a algo se privando de viver realmente se ao final terá pouco ou nada como proveito? Não digo para não haver dedicação naquilo que se almeja, digo para não haver tanto apego ao material. Para se deixar sentir a vida de outros modos.

Bem aventurados são aqueles que no caos do mundo superam a rotina e mergulham de cabeça no que é realmente a vida. Aqueles que se entregam inteiros: de corpo, alma e coração. Os que não tem medo de ser vulneráveis e sim, entendem que ser forte é se arriscar por saber que a vida é breve demais para se privar de certas coisas pelo medo de se machucar. 

Você que já experimentou a vida, tem gosto de quê? É, você que em meio as leis que regem o mundo encontrou um jeitinho de aproveitar sua existência no mundo, vem cá, me diz. Consegue descrever para mim a sensação de liberdade que percorre por dentro? Ser livre não é apenas pensar como se a porta de uma grande gaiola estivesse aberta, é se permitir conhecer outras gaiolas de tempos em tempos só para aproveitar a paisagem do caminho que liga todas elas.

A vida é muito mais que as obrigações. É muito mais que o cansaço no fim do dia, é a recompensa do esforço diário curtindo aquela sua música favorita, é se desprender do mundo para encontrar a si mesmo. Viver não se resume apenas a existir, milhões andam como bonecos de plástico pré-programados para agir. Não seja como eles, não só experimente, mas deguste da vida com vontade.

22 agosto 2016

EU NÃO SOU DESCARTÁVEL

Tudo anda se reduzindo a nada, inclusive o amor. Queria mesmo saber quem é que andou ensinando por aí que pessoas devem ser tratadas como coisas e não como seres. Por favor, já podem me apresentar o infeliz? Preciso dar uns bons tapas de realidade na cara dessa criatura. Porque já chega, cansei dessa idiotice de tudo parecer descartável. Tudo gira em torno do esquecimento, mas me diz: pra quê? Por que motivo um ser humano se vê tentado a esquecer algo que já lhe fez bem só porque, no presente, acabou? Não, isso não entra na minha cabeça e que me desculpem os que se julgam desapegados. 

Eu não sou descartável e odeio me sentir como se fosse. Não sou um copo plástico que você bebe dois goles e joga fora só por ser mais um que saciou sua sede. Meu caro, o amor é mais que isso, é muito mais que instantes. As pessoas são mais que meros momentos, entenda! Uma coisa é o fato de que acontecimentos beiram os mares do esquecimento, outra coisa é esquecer de fato a importância de alguém na nossa vida. 

Confesso que já quis esquecer amores antigos, já quis eliminar qualquer vestígio de certas pessoas da minha história, mas te digo: não consegui. Não consegui porque não vejo as pessoas como coisas, vejo como seres iguais a mim e importantes dentro da minha caminhada. Quis enxergar justo você, que me fez um mal danado, como um alguém importante dentro do livro da minha vida. Se quer bem saber: eu não te esqueci e nem quero. Não sou como você, me recuso a ter tamanha ignorância dentro de mim.

Me recuso a te enxergar como um fim que deu errado, pois não deu errado. Deu certo! Deu totalmente certo para o momento em que estávamos, fomos felizes, não fomos? Não acho que seja o final de algo que defina a trajetória inteira. Jamais te verei como alguém que foi embora e não voltou, apesar de essa ser a realidade, verei como um alguém que decidiu seguir um novo caminho, mas mesmo assim permaneceu. Permaneceu porque, querendo ou não, me importo com o seu bem estar longe de mim e torço em silêncio por dias tranquilos por aí.

Sei que as pessoas não são descartáveis como copos plásticos, sei que sentimentos valem muito para deixar que se percam com os anos. Sei, principalmente, que embora para alguns o desapego soe como um descarte emocional, para mim, soa como um apego. Apego sim, porque o que já foi importante de verdade, não deixa de ser só pela distância ou pelo efeito do fim supostamente dito. Não somos emocionalmente descartáveis, jamais seremos.

15 agosto 2016

DE QUE É FEITO O DURANTE?

Esperamos tanto por momentos que esquecemos de presenciar o exato minuto em que estamos. É tanta expectativa criada que o presente acaba deixando de existir. Esperamos pelo dia seguinte, pelo almoço, pela ligação, pelo abraço, por amores e esquecemos de focalizar o tempo de agora. Pensamos muito no depois e deixamos de dar o devido valor ao que já estamos vivenciando. A vida acontece no presente, não no que já foi deixado lá atrás ou no que nossos anseios futuros desejam. 

O momento é feito de sensações, essas mesmas que supomos milhares de vezes ao criarmos em nossas cabecinhas expectativas aleatórias. Essas sensações que por vezes deixamos passar enquanto deveríamos estar as aproveitando são as mesmas que serão lembradas como situações. Elas não voltam, o momento não volta. Elas viram lembranças. É por isso que precisamos deixar de pensar no antes ou no depois e focalizar nosso pensamento no durante, no que está acontecendo. 

E o durante é feito de sensações. Dessas que quando fechamos os olhos e respiramos fundo conseguimos entender o grande significado de existirem. É feito daquele abraço apertado que não conseguimos soltar, do beijo de boa noite ao fim de um dia exaustivo, do bom dia que não é só um "bom dia" mas o desejo da outra pessoa de lhe desejar um dia realmente bom, da sensação de gratidão ao fim de um objetivo cumprido, do grito amigo pedindo socorro, do se sentir útil. O durante é feito de momentos presentes, de sensações que te abalam de forma positiva ou negativa física e mentalmente nesse exato minuto.

Talvez aquela espera exagerada pelo novo dia já chegou, você não pensou nisso ontem também? E o almoço tanto esperado, em um minuto será servido... aproveitará ele com vontade? Aquela ligação, aquele abraço, aquele amor tão sonhado... será que de tanto esperar e esperar você não deixou de ver ele passar? Esperamos tanto que acabamos esquecendo de ver o presente e muitas vezes perdemos ele para o passado. 

Devemos abrir os olhos ao hoje, ao que fazemos nos preocupando apenas em dar valor enquanto já estamos vivendo. As expectativas que criamos acontecem e, as vezes, nem sequer nos damos conta no momento até que se tornem lembranças. Sinta o hoje, o ontem migrou para a memória e o amanhã talvez te frustre ou surpreenda, mas não só o espere, faça acontecer. Por isso aproveite o durante, é dele que se faz a vida. 


29 julho 2016

SEJA GRATO

Desde muito cedo aprendi a agradecer e a partir de então nunca resolvi tirar isso da minha rotina. É quase como escovar os dentes ou almoçar, meio que faz parte dos meus dias. Aprendi a não pedir mais do que agradecer e ao invés de implorar aos céus por algo, decidi que era mil vezes melhor agir ao ficar parada esperando por um milagre. E confesso que aprendi essa forma meio "madura" de enxergar a vida muito cedo, quase nunca fui de pedir sem fazer esforço para conseguir algo. Acho que sempre prezei muito pelo orgulho de finalizar algo que eu podia dizer que corri atrás para conseguir e não que ganhei de mãos beijadas e ao final poder agradecer pela força de ter chegado aonde cheguei. 

Por isso eu levo a gratidão como um mantra, como a palavra do dia, do ano, da vida. Quando somos gratos pelo que temos acabamos enxergando o valor de tudo isso que já possuímos. Já ouvi muitos casos de pessoas que perderam algo ou alguém e só se deram conta de que aquilo ou aquela pessoa realmente importava depois que já não fazia mais parte dos seus dias. A gratidão diminui essas decepções pois nos ensina aos poucos a valorizar aquilo que já temos sem exigir algo a mais a todo momento. 

Então seja grato sempre e em qualquer circunstância. Mesmo em meio ao caos há algo positivo, há algo que valha a pena agradecer. Seja grato pelo bom do dia e pelo mal que te fez amadurecer mais um pouco. A vida não é o amanhã ou o ontem, é o hoje. A vida é no pouco que vamos vivenciando, é em cada minuto que construímos a nossa história. Por isso seja grato pelos pequenos momentos que formam quem você é, sejam eles bons ou ruins. 

Gratidão é uma forma de enxergar o lado bom das coisas, da vida, do mundo. Pois quando passamos a agradecer, mesmo que pelo pouco que houve de bom no dia, enxergamos além daquilo que pode ter ocorrido de ruim. É quase como se livrar de pesos e nos tornar mais leves. As vezes são essas pequenas coisas ruins que nos causam grandes acumulos porque acabamos deixando que se tornem cada vez maiores apenas por enxergar seu lado não tão bom. Seja grato abrindo a mente para o que convém sem deixar que mesquinharias estraguem mais do que apenas um dia. 

Seja grato pelo simples que te envolve como uma coberta nas noites de frio, pelo céu que resolveu te dar um presente em forma de pôr-do-sol e até pela chuva que por mais que te atrapalhe durante o dia, trás a sensação de calmaria durante a noite. Seja grato pelo que tem e verá que o que acha ser pouco, na verdade, é muito mais do que você pode enxergar. 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...