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07 novembro 2024

JÁ NÃO SEI MAIS ESCREVER SEM SER SOBRE VOCÊ

É que eu já não sei mais escrever sem ser sobre você. 

Desaprendi qualquer outra escrita desde que te conheci.

As palavras só sabem me guiar ao teu encontro.

Tudo tem teu eu escancarado nas entrelinhas.

E eu já não sei mais ser poeta sem recitar teu nome.

Tudo acaba sendo você mesmo que nem seja sobre você.

Tu é meu bloqueio criativo.

As letras expressam o quanto meu eu só sabe transbordar você.

E infelizmente, meu eu poeta não mente.

É nos versos que te trago para perto.

É nas vírgulas que te faço eterno.

Mesmo que você já nem exista mais aqui.

E a distância seja pautada pela presença ofuscada.

Te gostar se tornou silencioso.

E esse nosso silêncio anda gritando cada vez mais alto aqui dentro.

Mas não posso gritar.

Então, te escrevo.

Como se no oculto a gente pudesse conversar.

Só que na poesia o grito é mudo,

E o eco é sempre lancinante.

18 agosto 2024

TUA BOCA TEM GOSTO DE QUERO MAIS


Tua boca tem gosto de quero mais. 

Teu beijo me é caminho sem volta. 

Tua mão no meu cabelo me tira do rumo.

Tua língua me rouba a decência mais pura.

Teu suspirar no meu ouvido abafa qualquer resistência.

Em ti eu me deixo.

Em ti me demoro.

Sem pressa.

E nem penso em regressar.

Meu corpo pede pelo teu corpo.

Meus lábios anseiam molhar os teus.

Teu toque controlado controla meu êxtase.

Teus dedos descontrolam todo meu controle.

E tu me tem refém da palma das tuas mãos.

Enquanto teu olhar indecente me entrega tua satisfação.

E teu riso de canto me quebra ao meio.

Nosso sussurro vira música explícita.

Eu, letra. Tu, melodia. 

Nossa dança, coreografia.

E no ápice dessa canção eu sou tua.

Só tua. 

E tu se deleita dentro de mim.

Como se dali não quisesse mais sair.

Teu eu me é faísca perigosa.

Mas não canso de arriscar.

Teu calor complementa o meu.

Nosso fogo é unânime.

Somos encaixe mesmo sem se ter.

Em ti eu queimo sem arder.

Me entrego sem receio.

Por ti eu perco a postura com gosto.

E meu corpo só sabe te querer outra vez.

De novo. E de novo. 

Como quem escuta uma música várias vezes sem cansar.

Minha boca te quer fora de hora.

De manhã. 

À noite. 

No meio do expediente.

Na cozinha. No sofá. No quarto.

Minha pele te lembra mais que a memória.

E a lembrança quando é física se acende involuntária.

Tu me é sensação que não dissipa.

Teu gosto de mim não saí.

Teu cheiro de mim não some.

Teu toque em mim permanece.

Tu me é arrepio distante.

Nossa fusão me é um vício sem fim.

Daquele tipo insaciável.

Que me faz querer sempre um pouco mais de ti.

09 agosto 2024

SOMOS POESIA FEITA PELA PONTA DOS DEDOS

Eu te escrevo em letras perdidas.

Num português indecente mascarado de poesia.

Tu me escreve em toques.

Em dedilhados vorazes,

Que me roubam a decência mais pura

E me fazem perder a pose.

Ambos fazem poesia pelas pontas dos dedos.

Eu transformo palavras em melodia.

Tu me convida à dançar a tua coreografia.

E cantamos sempre a mesma música.

11 julho 2024

GOSTO DE TE PERCEBER ME PERCEBENDO

Leia ouvindo: Watch Over You - Alter Bridge

Gosto de te perceber me percebendo.

Gosto de observar teu eu me interiorizando pela tua pupila ampliada.

Gosto do momento exato que preencho tuas lacunas como se ali pudesse existir para sempre.

Do tanto que silenciosamente ocupo teu espaço.

E o tanto que tenta evitar me deixar entrar.

Mas gosto. 

Porque da mesma forma que meu eu te foge os limites.

Meu eu também te liberta.

Posso te ter vulnerável para mim enquanto vou me tornando parte de ti.

E me permito estar suscetível ao teu sentir omisso.

Mesmo que tua fragilidade em me gostar soe sagaz.

Gosto quando está à beira de falar de amor.

E foge.

Gosto desse silêncio que me diz tanto.

E daquilo que esconde.

Mas percebo.

Gosto que teme por me ter nas mãos.

Mas anseia por tocar meu corpo.

E sem querer querendo também se inunda de nós.

Numa avalanche sem retorno.

10 julho 2024

EU PROMETI NÃO ME ENTREGAR

Nunca quis me entregar, de fato. 

Mas de todas as vezes que me desfiz nas tuas mãos, em nenhuma medi esforços para recuar.

Defini um mantra de que não cederia à essa paixão entrecortada, de que não me entregaria a uma sinopse de um romance nem sequer escrito.

Mas cedi.

Me entreguei antes mesmo de ser.

Me entreguei antes do primeiro beijo.

Muito antes de conhecer o teu sabor.

Já havia me entregado à ti ainda no olhar.

Na tensão que crescia em euforia a cada troca de atenção disfarçada. 

Na profundidade omissa que o espaço entre nossos lábios já carregava. 

Nas pupilas dilatadas lotadas de um mar de possibilidades inimigináveis que nos fizeram querer experimentar quais seriam os frutos dessa imaginação.

Eu me entreguei antes de querer me entregar. 

E em todas as vezes que neguei estar entregue...

Me entreguei a cada toque teu que dissipou calor em mim.

Em cada segundo que descongelou meu coração com teu corpo quente.

Em cada lapso de ansiedade que te encontrar me causava.

Eu me entreguei a cada palavra que perdi ao falhar da voz na tua presença.

A cada transbordar de ação do nosso nós em sintonia.

O agir silencioso sempre gritou mais alto que as palavras.

Só que eu prometi que não me entregaria...

E já estava entregue muito antes de pensar em não estar.

Talvez o que nunca quis, de fato, era não me entregar.

12 dezembro 2023

ME CONTA DO TEU EU

Me conta do teu eu, me deixa descobrir tuas entrelinhas.

Deitar no teu peito e ouvir teu coração acelerar as batidas enquanto tua mão na minha cria conexões das quais nem sei se quero ter.

Me deixa te conhecer.

Te descobrir sem receios.

Me conta do teu dia, do teu estresse rotineiro e das coisas que não diria pra mais ninguém no mundo.

Me mostra teu lado oculto sem medo do que eu possa achar. 

Quero te conhecer sem leis.

Sem inibições.

Te perceber inteiro, com todas essas tuas manias estranhas e defeitos incontáveis que eu posso talvez nunca querer aguentar.

Me conta do teu eu mais intríseco. 

Dos teus medos.

Anseios.

Sonhos.

E dos desejos mais improvavéis.

Me mostra quem tu é sem máscaras sociais. Sem uma pose pra manter, a barba feita, o cabelo arrumado ou a roupa perfeitamente alinhada. 

Quero te conhecer livre de qualquer dogma que te prenda.

Me apresenta teu eu sem essas parafernalhas todas que limitam.

Me mostra teu eu mais íntimo.

E faz de nós: intimidade.

27 outubro 2023

APAGA A LUZ, ACENDE A GENTE

Apaga a luz. 

Acende a gente.

Fica e faz de mim teu lar.

Me beija com calma. 

Se deixa aqui, no lado oposto da cama.

Bagunça meus lençóis.

Faz da saudade essência impregnada no travesseiro.

Vem cá, chega mais perto. 

Tão perto que tua barba me cause cócegas.

Deixa o macio do teu lábio encontrar o meu num beijo longo.

E minhas mãos te acariciarem o rosto enquanto gravo cada instante na memória pra não perder nenhum detalhe.

Me despe com o olhar.

E joga teu sorrir pro lado daquele jeito indecente que me faz perder a pose.

Se deixa em mim.

Descansa teu corpo no meu.

Que eu te ouço entre suspiros e sussurros.

Me fita.

Me toca.

Me cansa.

Te canso.

Chega pra perto.

E me cola em ti.

Me pega pela cintura.

Me coloca no colo.

Deixa eu sentir que o mundo pode desabar abaixo dos meus pés se eu estiver segura nas tuas mãos.

No calor do teu abraço.

Vem!

Apaga a luz...

Me olha profundo nos olhos.

E acende de uma vez por todas essa nossa faísca.


(Gabrielle Roveda)

15 agosto 2023

POESIA É COISA DE GENTE TOSCA

 

Poesia é coisa de gente fraca.

Vulnerável.

Solúvel em prosa fantasiosa.

Poesia é coisa de gente tosca!

Mas eu toscamente me desmonto em linhas poéticas.

É que é gostoso ser tosco no papel.

É gostoso me desfazer e refazer em linhas tortas que disfarçam aforismos.

Em jargões ridículos que inibem o real numa metáfora qualquer que quem lê acha bonito, mas no fundo nem entendeu.

Poesia é breve. Passagem e passageira.

E em um mundo que escorre pelas mãos é fuga recriada.

É nudez.

Intimidade.

Introspecção.

Poesia é parque de diversão da solidão.

E eu me desmancho vez ou outra nessa ludicidade de palavras porque viver é uma brincadeira que meu eu adulto levou muito a sério.

E ser poeta é vivenciar a fantasia em que o único brincar que se sabe é com palavras desconexas que dizem tudo sem dizer nada. 

Poesia preenche espaço vazio de gente tosca.

É tapa buraco e mais uma dopamina acessível num mundo afogado de excessos, onde quem não tem poesia cura o espaço do ócio com outras drogas baratas.

É. Poesia é coisa de gente tosca!

É êxtase.

Viagem para fora de si.

É fuga de uma vida em que se assume a pose de um robô articulado em uma sociedade regada pelo egoísmo de que nada se pode esperar, nada se pensa em profundidade, nada se pausa.

Poesia é coisa de quem não tem o que fazer!

Os 15 segundos infindáveis da fútil existência que rola para o lado num deslizar de dedos é muito mais interessante.

A experiência cuspida por dois ou três bocas na tela trincada ocupa com êxito o espaço vazio dentro de si que não se aprendeu a orbitar.

E a poesia, meu bem...

A poesia é apenas coisa de um eu tosco.

E sem essa tosquice de se apagar pra existir a minha vida, com certeza, perderia a graça.


(Gabrielle Roveda)

09 julho 2023

TAL QUAL PLUTÃO

Leia escutando To Good At Goodbyes - Sam Smith

te faço poesia sem permissão alguma, perdão

te internalizo entre versos descontextualizados que só eu entendo

faço arte com a lembrança que carrego no peito da tua voz rouca e pincelo em aquarela planetas distantes com teu rosto num universo infinito o qual não alcanço 

retrato estrelas, constelações e detalhes minúcias que da tua imagem nunca consigo esquecer

teu sorriso de canto tal qual sol da via láctea, centro gravitacional que me atraí para ti

te construo galáxia no meu mundinho sem sal como se tu feito astronômico pudesse de fato me deixar orbitar

mas não orbito, seja por teimosia ou receio

não desacoplo desse eu distância que inventei de mim

sou feito astronauta, ando perdida em gravidade zero bem longe de casa

luto para retornar à estabilidade enquanto o alerta de oxigênio apita sem descansar entre uma tosse e outra

bip... bip... bip...

a garganta seca, os olhos marejados

encaro o horizonte através do capacete num lapso de suicídio mental querendo, na verdade, não partir dessa ilusão

o vidro desfocando pela fumaça tragada por pulmões desgastados, a paranoia constante se esvaindo em pensamentos interligados que já não fazem mais sentido

a chuva e o vento em redemoinhos dentro de mim marcando o êxtase das borboletas na tua ausência

me refaço planeta atmosférico e revivo outra vez

sobrevivo

aterrizo na minha sarcástica zona de conforto desconfortável

recorro ao mundo real, àquilo que desconheço e finjo entender 

aterro meus pés nesse chão caótico familiar demais 

estou em casa outra vez, mas não queria estar

a cama vazia, o pó acumulando nos livros, o cheiro de incenso de canela pairando no ar, o vidro embaçado enquanto o úmido da noite lentamente se transforma em mofo bem diante dos meus olhos

o mesmo quarto calado, o mesmo cárcere humano

sinto tua falta a aquecer meus pés gelados e talvez o coração

mas teu eu me é caminho longo, viagem interestelar

tal qual plutão

distante...

questionável...

talvez frio demais para poder existir

(Gabrielle Roveda)


12 junho 2023

FEITO MÚSICA

Teus acordes tortos destoantes num violão jogado de lado.

O papo clichê a contrariar o tempo.

Teu olhar semicerrado indefinido a tentar me decifrar, a pupila grande o suficiente pra me fazer entender. 

O copo amargo marcando a madeira em rodelas molhadas. Desenhos geométricos abstratos pincelados sem finalidade, inexpressivos. 

Inconscientes. Inconsequentes.

Mãos que se tocam, o vácuo feito ímã. 

Polos iguais repelidos. 

Recuos.

Reversão. 

Enfim atraídos. 

Lábios gelados pelo sólido que tilinta entre goles secos.

Toques.

Teu beijo lento. 

Por fim, a gente.

Tal qual jogados de lado, pudor satisfatório. 

Conectados.

Feat censurado. 

Os cobertores a cobrir a indecência tardia.

Teu dedilhar em mim, nossos corpos melodia. 

Composição efêmera.

Aquele refrão chiclete. 

Curto tempo, vício ligeiro.

Envolvente.

Feito música, nós dois.

... repeat. 

26 junho 2022

EM ÓPIO

A mão gelada entrelaça o cinza entre as digitais
O grafite perfura o tempo inventando outros riscos.
Outras linhas.

O coração foge para a porcelana quente
que exala o aroma amargo recém passado
como se pudesse dar mais tempo ao tempo.

A folha grita suspiros
em melodias quase mudas
enquanto compõe letras
que nunca serão entoadas por voz alguma.

Anseios que antevem mundos coexistentes.
Uma busca irrefreada por expor a carne
sem mais ter que precisar enxergar o sangue.

Cicatrizes despercebidas à olhos nus narram histórias
que pouco tem a ver com maturidade.
O lápis provoca rasuras que contam vivências.

A euforia se esvai.
O tempo pausa a vida, mas continua correndo.

A letargia se limita a dimensões.
Enquanto o café esfria nas palmas
e a alma se dissipa em metonímias.

Não preciso mais me rasgar em lâminas finas
Pois me entrego ao ópio.
Em linhas tortas encharcadas de metáforas.

03 novembro 2020

BIP...

Oco.

Sinônimo de um sentimento vão.

Desabitada.

Fora de mim, em mim ainda. Distante daquilo que sou sem saber pra onde fui. 

Perdida. Me perdi.

Uma astronauta asmática num planeta caótico com o cronômetro gritando os últimos bips incessantes antes de o oxigênio acabar.

Caos.

Bip...

A escuridão difusa.

Bip...

Um vácuo composto de poemas. Meus problemas.

E eu, sobre vivo. 

Não sobrevivo.

Perco meu eu em letargia, em uma demência anestesiada por álcool barato e desgaste rotineiro.

Me embriago de insensatez em metáforas cafonas que me salvam de mim por segundos tão curtos.

Um suicídio mental.

Diário. Constante. Irrefreável. 

Jovem demais pra morrer, dizem.

Mas morta por dentro.

Bip...

Fecho os olhos. O silêncio salva.

O tempo também.

Talvez amanhã eu não seja temporal.

Bip bip bip.

09 agosto 2020

LONGE DE CASA

Tenho andado pela metade.

Tem manhãs que o corpo levanta, mas a alma não acorda. Noutras a alma desperta e o resto permanece dopado de uma letargia repugnante.

As cores se escalam em tons de cinza, nada tem muita graça mais. Submerjo em madrugadas me embriagando de palavras, me iludindo em métricas cafonas como se por um acaso toda essa besteira pudesse me salvar da minha existência.

Perdi a cor.

A alma.

Ando vagando por aí como um zumbi, um corpo sem vida controlado por milhões de paranoias fúngicas que me inibem de ultrapassar o fino limite entre viver e existir.

Comi meu cérebro. Engoli numa garfada só, consumi todos os pensamentos para não ter que encarar mais nenhum. Joguei tudo para o pano branco do eu incógnito.

Não sei quem sou.

Me perdi por aí.

Deixei escapar algo no verão, acho que na areia macia que escorria entre os dedos. No castelo mixuruca que construí algo meu se foi também. 
A água me lavou, será?

Me levou...

Fez redemoinho, arrastou pela corrente gelada lá pro fundo do oceano.

Me fez morada em conchas.

E eu me fiz pedaço partido de uma solidão rígida fantasiada de grão de areia. Quis compor um espaço que talvez não fosse meu.

Acho que não sou daqui, talvez seja mais como poeira estelar.

Grão do útero do universo, resquício de uma biologia milenar, de uma incalculável e infinita história para bebê dormir sem moral nenhuma.

Me desfiz em fragmentos pequenos para caber sem chamar atenção. Mas chamei, pedaços de nada também são estrelas cadentes no céu.

Como um astronauta nostálgico ando com saudade de  ser gravidade zero, apenas ser sem estar.

Estou longe de casa, não sei mais pertencer.

Eu só quero ir embora daqui.

15 fevereiro 2020

ESTAR SÓ, COMIGO

Hoje me convidei para sair.

Sair da monotonia dos fins de semanas regados a companhias trem-bala que em segundos mudam de estação e dar descanso aos tímpanos estourados pelo som de músicas que afagam egos frouxos.

Deixei a rotina no varal molhar com a chuva de atenção que dei a mim, queimei a necessidade de presenças alheias no fogão abandonado enquanto acertava a conta com o entregador da pizza de amor próprio que adquiri. 

Bebi meu vinho amargo entre goles doces da minha própria comédia romântica interiorizada, talvez melhor que original da Netflix.

Fiquei sozinha, só comigo.

Um programa entre eu e eu onde posso reconhecer quem, de fato, sou. 

Ignorei chamadas rasas no bip incessante da tecnologia antisocial socializadora, me fiz presença em mim.

Escolhi fazer as pazes com a solitude há muito ignorada pela ansiedade de viver os dias sem pausas.

Hoje eu decidi estar só. Só comigo.

14 fevereiro 2020

ENTRE VERSOS ANVERSOS EM TI TROPEÇO

Fatal.

Tu e essa minha mania idiota de te colocar no meio dos meus versos cafonas.

Tropeço naquele teu riso torto feito labirinto no caos de memórias tuas infiltradas no raso dos meus dias, polaroides impressas e penduradas num varal de fotografias oculares que faço questão de tentar não esquecer e quando vejo já te reconstruí em palavras sem nem me ater ao fato.

Palavras essas que por ti nem serão lidas. 

Talvez por isso te faça poesia sem enrubescer as maças desse meu rosto pálido, sem inibir meu eu poeta. 

Talvez por saber que minhas metáforas serão sempre indiferentes ao nu do teu olhar eu me faça ignorar um coração cinzento que sincroniza as batidas com o som da tua respiração sem nem querer. 

Tu me é o inverso da inspiração, meu verso descrito em falhas.

Em ti desmancho melodias pautadas em autorias aclamadas pela minha vã infinidade de me prender à palavras medíocres que de tão boas me protegem das fugas. 

Tu me transborda verbos em discordância, em ti tropeço nos meus versos anversos.

Entre rimas e nostalgias te crio presença pelas pálpebras fechadas das minhas noites de luar onde converso com a lua esperando que ela reflita como um espelho do horizonte teu rosto a sorrir outra vez pra mim. 

Eu te peço insaciável e te afasto na defensiva, confundindo constelações ao exigir formas tuas que me guiem para bem longe da falta de reciprocidade que tu me trás.  

Irônico tua falta ainda assim me ser presença. 

Inevitável, eu diria.

Tu me é poesia sem nem me ser. 

Sem se quer querer.

23 maio 2019

A DISTÂNCIA É ESTRANHA QUANDO A PRESENÇA É INTERNA

Estávamos a sós.

Só você. Apenas eu.

Ambos corpos separados pelo espaço físico de anos.

Sobre o travesseiro mudo as memórias repousadas.

Os ouvidos? Atentos ao interior daquele que aos poucos se armaria numa figurativa taquicardia emocional e àquela trilha sonora desgraçada. Iniciada bem ao fundo (shh!) baixinha, vinda lá do cantinho do inconsciente já à postos, totalmente decidida a nos aproximar em mais uma dessas noites. Essas que o pé gela pelo frio enquanto as mãos queimam na porcelana da xícara de café ardente e a gente olha para o céu estrelado e se questiona:

"Seria diferente?"

E eu diria que as primeiras palavras aqui descritas - curtas, espaçadas - bastariam como resposta.

Porque as entrelinhas (ah!), elas sempre nos bastaram.

Talvez não mais significado haja entre o espaço não explícito das nossas mensagens trocadas, mensagens não escritas, nem faladas. Talvez haja apenas algum entendimento (consentimento?) a submergir na linha do tempo da nossa distância atemporal, no olhar profundo, tão lá dentro que chega a causar claustrofobia. 

Ou seria apenas nostalgia?

É estranha essa distância tão próxima que tu me causa, é estranha porque a presença é só interna, porque há um elo invisível e infinito quase como um cordão umbilical que me liga, não ao teu corpo, nem à presença reconfortante dos teus dedos nos meus, mas à tua alma. 

Não sei explicar, bem que eu gostaria!

Já busquei respostas da psicologia à matemática, mas nem razão, nem emoção explicam essa coisa estranha que surge de vez em quando, é uma faísca pequeninha, mas ainda assim uma faísca. Ninguém me explica porque volta e meia tu reaparece pra bagunçar meu interior, se faz presente mesmo sem estar e eu, bobinha, compartilho minha vida com a tua imagem fantasma.

E te imagino comigo enquanto o café esfria nas mãos, enquanto a névoa apaga as estrelas e a memória relembra teu perfume no deslizar do aroma que a noite traz. Eu sorrio, gargalho talvez. Um riso que seria pra ti ao olhar para trás, como se de alguma forma pudesse mirar o passado.

Eu te lembro, inteiro.

Te desconstruo ali, tal como construí. Na varanda de um outono sem graça mais um adeus, tão incessante como todos os outros. 

A sós.

Sem tu. Só eu.

Sem mais entrelinhas para compor a saudade. Sem teu calor ou tua respiração ofegante. Sem teu cabelo molhado molhando meu corpo. Sem tua cutícula por fazer arranhando de leve a minha pele, causando arrepios. Sem teu gosto salgado e teu lábio tão doce. Sem os pingos de chuva batucando no telhado. 

Sem nós... Tangíveis. 

(Gabrielle Roveda)
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