01 julho 2023

CARTA ABERTA À MINHA ANSIEDADE

Leia escutando: Welcome To The Jungle - Guns N' Roses

Eu te tenho. Não como algo intrínseco.

Te tenho numa relação de posse, a qual eu muitas vezes não sou o lado dominante.

E quando estamos no ápice do nosso relacionamento eu perco a vez, minha vida se torna um longo espasmo incontrolável. Sou totalmente submissa a tua vontade insaciável de preencher um algo inventado que talvez, e provavelmente, não exista.

Fico a mercê do que tu inventa. Do teu universo de fantasias e possibilidades infinitas no qual não me encaixo, mas insisto em tentar pertencer.

Um universo teu que não faz sentido pra mim, mas se torna um ideal do qual luto com afinco sem nem saber os exatos porquês. 

É que tu me infiltra no teu oceano caótico enquano eu remo um barquinho de papel frágil ao mínimo golpe de uma gota.

No entanto, eu permaneço. Firme e forte tal qual um navio cargueiro. 

Como se entre elevações monstruosas precisasse sobreviver, como se um eu capitão tomasse conta de mim. 

Levantar âncora!

Encaro a chuva torrencial, os raios...

A escuridão... O céu e o mar unidos em tons de cinza...

Olho para os fantasmas que se formam entre o quebrar das ondas.

Revejo os danos a bombordo, as cicatrizes a estibordo.

Temo as suposições que batem de frente com a proa. 

Aconchego os medos que continuam aterrorizando a popa. 

Por quê? Não sei, talvez nunca saiba. 

Fico à deriva como um fantoche.

Te deixo fazer de mim o que tu quiser com um manto na parede da consciencia, como se o que tu me sussurra no ouvido fosse a única verdade do mundo. 

Embora eu saiba que não. 

Embora eu insista em te negar.

Tu me preenche por completo e depois vai embora. Deixa a catástofre de um furacão que surgiu com a mesma breviedade com que desapareceu.

O chão fica sujo, o rastro bagunçado...

E eu nunca sei por onde re-começar.

Nunca é do zero que eu parto, volto algumas casas, o início vem do negativo, do que antecede o zero.

É sempre um inferno quando te percebo me consumir e sumir assim.

Tu me deixa um vazio.

Um vazio que eu não consegui preencher. Que já nem quero mais ocupar.

Um estranho e desconcertante sei lá pra todas as perguntas sem respostas. 

É que tu se preenche em mim e de mim sobra sempre tão pouco.

21 junho 2023

FOI O FRIO NA BARRIGA, DOUTOR

Começou com um arrepio. Um frio na barriga que se prolongou para a espinha, como quando algo pode dar errado e o medo surge percorrendo as sinapses e causando sensações estranhas.

Essa também foi estranha, mas não como a do medo.

Foi um arrepio gostoso, como se o geladinho que sobe pelo corpo tivesse construindo algo, algo que não era sobre fugir ou ficar alerta. Mas sobre borboletas que viriam a congelar em breve.

E construiu. 

Construiu uma armadura de gelo, um pacote blindado para um órgão que bombeia calor.

E acho que no fim, foi sim sobre ficar alerta ou fugir. 

Ou sobre não gostar muito de borboletas, talvez.

É que meu coração começou a gelar ainda com esse frio na barriga, Doutor.

E quando vi, já era tarde demais.

12 junho 2023

FEITO MÚSICA

Teus acordes tortos destoantes num violão jogado de lado.

O papo clichê a contrariar o tempo.

Teu olhar semicerrado indefinido a tentar me decifrar, a pupila grande o suficiente pra me fazer entender. 

O copo amargo marcando a madeira em rodelas molhadas. Desenhos geométricos abstratos pincelados sem finalidade, inexpressivos. 

Inconscientes. Inconsequentes.

Mãos que se tocam, o vácuo feito ímã. 

Polos iguais repelidos. 

Recuos.

Reversão. 

Enfim atraídos. 

Lábios gelados pelo sólido que tilinta entre goles secos.

Toques.

Teu beijo lento. 

Por fim, a gente.

Tal qual jogados de lado, pudor satisfatório. 

Conectados.

Feat censurado. 

Os cobertores a cobrir a indecência tardia.

Teu dedilhar em mim, nossos corpos melodia. 

Composição efêmera.

Aquele refrão chiclete. 

Curto tempo, vício ligeiro.

Envolvente.

Feito música, nós dois.

... repeat. 

31 janeiro 2023

TALVEZ ISSO NÃO SEJA SOBRE BORBOLETAS

Leia ouvindo: A Symptom Of Being Human - Shinedown

Confesso que é estranha a sensação de te gostar. De me apaixonar minuciosamente sem perceber. Ansiar pelo teu colo, pelo teu corpo quente a me envolver inteira num abraço.

Pela percepção da tua pupila que imita a lua cheia delicadamente simultânea ao meu olhar. De como tu me preenche com um simples beijo na testa.

É confortável te querer, ver a intimidade deslizando pelo embaraço de rotinas e histórias que não se conhecem. Ver teu eu misturado com o meu gradualmente.

Não ter teu corpo a se encaixar em mim, volta e meia me causa insônia, a noite passa e o que mais anseio são teus braços a me puxar para perto do teu peito feito casa. Onde posso me aconchegar e desligar sem preocupações.

Talvez, devo dizer, meu travesseiro também tenha saudade tua. E também sinta falta da tua respiração no meu ouvido a me estremecer o corpo todo e minha cama queira fazer parte da dança que teus dedos fazem ao deslizar pelas minhas costas.

É maluco e contraditório te observar por entre as minhas muralhas, como se por aqui nada sentisse enquanto cultivo meu coração na geladeira e um riso bobo apaixonado em cada vez que te vejo sorrir.

Não é como se tu não me despertasse um calorzinho gostoso que afinasse as camadas de gelo que construí, pelo contrário, não apostei sequer uma ficha na capacidade de te gostar e olha só onde eu me encontro agora, te escrevendo em linhas tortas.

A verdade é que eu não consigo entender essa situação, o quanto tu me faz vulnerável e mesmo assim me deixa segura com simplesmente a voz suave e a pose de que nunca mais vai deixar de existir na minha vida. Embora eu saiba que vai. 

Sabe, eu poderia facilmente me permitir me apaixonar por ti.

Poderia cuidar das tuas teimosias sem hesitar, fazer cara feia só pra ti me desestruturar com uma fala e um sorriso enquanto eu, teimosamente tentaria não perder a pose. Não me importaria em dividir silêncios e ócios ou assistir coisas duvidáveis na televisão e vez ou outra te tirar da zona de conforto mostrando que há muito mais do mundo a ser explorado e vivido. 

A merda é que não sei gostar de alguém e mesmo assim abri a porta do meu eu. Só que tu entrou sem pedir licença em lugares que eu não tive tempo de barrar.

Não pensei que se atreveria a ir tão longe com esse disfarce de quem não quer nada, mas avalia tudo e todas as possibilidades. Foi golpe baixo, eu sequer tive tempo de armar minha defesa. 

Não pensei que esse meu apreço pelo teu eu ultrapassaria mais de um amanhecer.

Talvez esteja ficando perigoso agora...

Talvez essa ansiedade estranha que eu sinto cada vez que te vejo sejam aquelas malditas borboletas no estômago que eliminei anos atrás voltando a vida e tentando fazer bagunça aqui dentro...

E digamos que embora minha vida viva bagunçada, eu ainda tenho medo de borboletas. 

29 agosto 2022

EU TE LEMBREI EM DEVANEIOS

Leia escutando Happy Endings - Sticky Fingers
Eu te lembrei em devaneios.

Como se tua ausência me fosse presença. Como se teu corpo estivesse ali, a ocupar o lado direito da cama, aquecendo o travesseiro e meu coração gelado nessa noite fria.

Te lembrei e te quis próximo, pra poder olhar outra vez fundo os teus olhos cheios de tanto pra dizer.

Revivi o cheiro de baunilha ambiente misturado ao teu aroma de banho tomado com cigarro impregnado.

Lembrei do deslizar das tuas mãos a me acariciar o cabelo, os dedos a desfazer nós, quem sabe, criando laços...

E do teu coração que fazia música em percussões descompassadas entregando o quanto o filme na televisão não era nem de perto o foco da tua atenção.

Uma forma de te ouvir falar sem precisar dizer uma única palavra... 

E é bom poder te gravar em minúcias.

Em pequenos espaços de tempo que o tempo apaga tão fácil, mesmo que volta e meia eu feche os olhos insistindo em tentar não esquecer.

A verdade é que eu senti tua falta hoje, - talvez ontem também.

Uma falta disfarçada de saudade, dessas que a gente não sabe bem como expressar. 

Nem sabe se deve, de fato, sentir.

É que eu te lembrei entre devaneios e sem querer te transcrevi. 

Transpus teu eu em notas cheias de inundações de mim. 

Te inventei composição efêmera, dessas que a gente cria e no minuto seguinte esquece porque não sabe bem se faz sentido lembrar.

Te construí ritmo descompassado num acorde mau entoado por dedos trêmulos que não sabem muito bem como expressar tudo o que o silêncio insiste em gritar. 

Te escrevi feito poema em linhas tortas. 

Te fiz métrica na euforia frenética de um sentir sem definição. 

E te compus meu entorno pra emudecer as palavras que te diria se, aqui dentro, houvesse um pingo de coragem e ousadia. 

Te lembrei e te gravei feito arte entre devaneios noturnos para que tu permaneça aprisionado no meu sentir e, vez ou outra, faça morada nos meus versos.
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